Por Marco Severini — Em um movimento que reconfigura, ainda que simbolicamente, a percepção pública sobre segurança e transparência, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, anunciou que instruirá agências federais a identificar e tornar públicos documentos governamentais relacionados à vida alienígena, a fenômenos aéreos não identificados (UAP) e a objetos voadores não identificados (UFO).
O anúncio foi publicado na plataforma Truth, onde o presidente declarou que orientará o “secretário da Guerra e outros departamentos e agências competentes” a iniciar o processo de localização e publicação de arquivos ligados a esses temas. A ordem presidencial prevê a inclusão de “toda e qualquer outra informação conectada a este tema altamente complexo, mas extremamente interessante e importante”, sem, contudo, explicitar se o escopo abrange materiais atualmente classificados.
Essas palavras chegam em meio a uma troca pública com o ex-presidente Barack Obama, que, dias antes, num podcast, havia admitido considerar plausível a existência de vida fora da Terra, ainda que tenha afirmado não ter observado provas durante seu mandato (2009–2017). As observações de Obama — inicialmente tratadas com leveza e depois esclarecidas pelo próprio em mensagem no Instagram — reacenderam controvérsias e teorias nas redes sociais sobre supostas revelações de informação sensível.
Trump acusou Obama de ter divulgado informação “classificada” sobre o tema e qualificou a ação como um “grave erro”, sem especificar quais trechos ou declarações seriam essa fonte de sensibilidade. A retórica presidencial, portanto, agrega um elemento de pressão institucional sobre a gestão de arquivos e sobre a eventual abertura de documentos que, até hoje, operaram como alicerces frágeis da diplomacia e da segurança nacional.
Do ponto de vista estratégico, a iniciativa se inscreve em duas frentes. Internamente, responde às demandas de transparência de uma parcela da opinião pública americana fascinada por UFOs e por narrativas de contato. Internacionalmente, ela configura um gesto de demonstração de controle narrativo: ao ordenar a declassificação, o Executivo procura dominar a agenda mediática e limitar conjecturas adversas — um lance sobre o tabuleiro que visa redesenhar fronteiras invisíveis da informação.
Importa salientar a distinção que Obama tentou manter: a plausibilidade estatística da vida extraterrestre em um universo vasto não equivale a evidência de visitas à Terra. O ex-presidente reiterou que, durante seus anos na Casa Branca, não encontrou provas de contatos. Essa clarificação reduz, por ora, a probabilidade prática de descobertas sensacionais, mas não apaga a pressão institucional por mais transparência.
Resta saber como as agências responderão à ordem presidencial — quais arquivos serão considerados relevantes, quanto tempo o processo levará e até que ponto materiais sensíveis serão efetivamente liberados. Na arena da informação, como no xadrez, cada movimento é calculado: revelar demais pode comprometer operações e fontes; revelar de menos alimenta suspeitas e teorias conspiratórias. A tectônica de poder entre transparência e segurança volta a se ajustar, enquanto o público aguarda, cético e curioso, os próximos passos desse redesenho documental.






















