Por Otávio Marchesini, Espresso Italia
A Juventus formalizou um pedido dirigido ao presidente da FIGC, Gabriele Gravina, solicitando a concessão da chamada graça para o zagueiro Pierre Kalulu, expulso por dupla advertência durante o clássico de San Siro contra a Inter.
No lance que desencadeou a sequência disciplinar, o árbitro La Penna assinalou primeiro uma falta de Kalulu sobre Alessandro Bastoni, resultando na primeira advertência. Num mesmo episódio, porém, o juiz considerou atitude de simulação do defensor nerazzurro sem aplicar o cartão amarelo. Minutos depois, um novo contato entre o francês e o mesmo adversário gerou a segunda advertência e a expulsão.
A diretoria juventina classificou a interpretação da arbitragem como incoerente e injusta, e tentou inicialmente o recurso junto ao órgão disciplinar. O apelo foi recusado pelo juiz desportivo, que manteve a suspensão de uma partida por “dupla ammonizione per comportamento scorretto nei confronti di un avversario”. Diante da negativa, o clube elevou a questão ao plano institucional, pedindo a intervenção de Gravina para anular a pena.
O episódio integra um quadro mais amplo de sanções decorrentes da partida: além da suspensão de Kalulu, foram aplicadas inibições a dirigentes da Juventus — o administrador-executivo Damien Comolli até 31 de março e o dirigente Giorgio Chiellini até 27 de fevereiro — por protestos e condutas consideradas agressivas frente à arbitragem.
Mais do que discutir a legalidade pontual do cartão, é necessário compreender o movimento do clube. Ao pedir a graça, a Juventus não busca apenas recuperar um elemento para a próxima partida contra o Como; promove uma argumentação institucional sobre critérios interpretativos da arbitragem e a possibilidade de correção administrativa quando o recurso desportivo falha.
Como observador das estruturas que organizam o esporte, vejo nesse episódio um foco de tensão entre regras formais e memória institucional. Decisões disciplinares não são somente juízos técnicos: reverberam na economia do elenco, na estratégia de final de temporada e na legitimidade das instituições de controle do futebol. A incongruência apontada pela Juve — uma simulação reconhecida sem punição e um procedimento punitivo subsequente — exige que a FIGC equilibre rigor e justiça percebida.
Se a solicitação for atendida, será um gesto com implicações simbólicas: reconhecer um erro de leitura pode restituir um jogador e, simultaneamente, reforçar a ideia de que a arbitragem e a justiça desportiva são passíveis de correção institucional. Se negada, a consequência imediata é desportiva (a ausência de Kalulu contra o Como), mas o efeito político pode ser maior, aprofundando a contestação do clube às rotinas disciplinares.
O desfecho aguardado terá, portanto, um significado que excede o minuto de jogo: trata-se de como o futebol italiano lida com coerência normativa, confiança institucional e a articulação entre instâncias técnicas e administrativas no centro da temporada.






















