Por Otávio Marchesini, Espresso Italia
As primeiras semanas de 2026 traçam um quadro menos linear para o tênis italiano do que o hábito recente nos fez acreditar. Depois da derrota nas semifinais do Australian Open diante de Djokovic, Jannik Sinner viu sua sequência negativa ser ampliada em Doha: eliminado nos quartos de final pelo tcheco Jakub Mensik, 16º do mundo, em três sets, o italiano convive agora com uma narrativa que exige mais do que análise técnica — pede interpretação psicológica e social.
Ao comentar o episódio para a Adnkronos Salute, o psicólogo do esporte Pietro Bussotti — coordenador de Psicologia do Esporte da Ordem dos Psicólogos da Úmbria — destacou um fenômeno recorrente em ciclos de sucesso: a criação de uma percepção coletiva de invencibilidade. “Quando um país deseja um 2026 melhor do que anos anteriores de êxitos, instala-se uma dinâmica de inércia psicológica; termina-se por sentir o atleta como invulnerável e, assim, a perda aparece como imprevisto que obriga a ricalibrar padrões”, explicou Bussotti.
Trata-se de um ponto que ultrapassa o circuito técnico. Em alto nível, as diferenças de jogo entre os protagonistas são muitas vezes marginais; o que frequentemente define o resultado são a gestão do foco e das emoções nos momentos cruciais. Nesse sentido, a discussão sobre expectativas — tanto internas quanto externas — ganha centralidade.
Bussotti chama atenção para o perigo dos pensamentos antecipatórios: após uma derrota relevante, como a sofrida contra Djokovic, instala-se uma voz interna típica — “não posso errar neste ponto” — que sutilmente altera a atenção e aumenta a probabilidade de flutuação de rendimento. “O risco é que este tipo de pensamento gere uma mínima, mas decisiva, queda de foco”, observa o psicólogo.
Apesar do resultado em Doha, Bussotti não vê sinais inequívocos de crise no comportamento de Sinner. Pelo contrário: as palavras do tenista ao fim da partida, segundo o especialista, foram de análise objetiva, sem catastrofismos — concentração em momentos específicos do jogo, não em julgamentos globais sobre si mesmo. Isso, para Bussotti, ainda indica uma boa gestão emocional e um caminho possível de ajuste.
Como analista que acompanha o esporte além dos placares, lembro que o que se joga aqui é duplo: o futuro esportivo do atleta e a capacidade coletiva de aceitar flutuações sem que elas transformem a história em rascunhos. A exigência do público e da mídia por resultados imediatos tende a obscurecer a necessidade de processos de longo prazo — treinamento mental, recalibração de metas, reconstrução de referências técnicas e táticas.
Para Sinner, a agenda é conhecida: retomar o equilíbrio entre ambição e realidade, transformar a derrota em diagnóstico de componentes precisos e gerenciáveis e — sobretudo — reconhecer que a narrativa da invencibilidade nunca foi um estado, mas uma construção frágil. Se há algo a aprender nesta passagem pelo ATP 500 do Qatar, é que a gestão de pequenas fissuras psicológicas pode ser tão determinante quanto o aperfeiçoamento do saque ou do forehand.
Em suma: não se trata de apontar crise, mas de identificar a rotina de ajustes que mantém um campeão competitivo. E nela, a psicologia do esporte tem papel central — tanto na reconstrução de expectativas públicas quanto na tutela da própria atenção do atleta.






















