Por Otávio Marchesini, Espresso Italia
O jovem tcheco Jakub Mensik, de 20 anos, entrou no debate sobre a próxima geração que poderá desafiar o topo do tênis mundial ao derrotar Jannik Sinner em três sets nas quartas do ATP de Doha. A vitória reacende a conversa sobre quem, além de Sinner e Carlos Alcaraz, pode compor uma nova dinâmica de forças no circuito.
Paolo Bertolucci, ao comentar o resultado para a Adnkronos, foi direto: “Não sei se apostaria todas as fichas nele, mas eu sinceramente me colocaria as mãos no bolso e colocaria uma boa parte dos meus dinheiros ali”. A frase, além do tom coloquial, contém um reconhecimento prático: há jogadores jovens com repertório físico e mental para sustentar resultados de alto nível.
Na leitura de Bertolucci, além de Mensik, o brasileiro Joao Fonseca aparece entre os mais preparados. No entanto, há uma distinção importante: enquanto Fonseca impressiona pelo talento aparente, Mensik é percebido como alguém que traduz força, solidez e aplicação tática com menos «efeitos especiais» — característica que muitas vezes se revela mais duradoura em termos de carreira.
O contexto formativo do tcheco também pesa. Bertolucci lembra da tradição da escola checa e traça uma curiosa genealogia técnica: “É a evolução da evolução da evolução de Ivan Lendl“. A referência não é apenas estética; aponta para uma linhagem de técnica e disciplina que tem produzido jogadores resilientes e fisicamente consistentes.
Sobre o jogo em si, houve um momento que poderia ter virado a partida: Sinner venceu o segundo set por 6-2 e tudo indicava recuperação. Mas no início do terceiro set veio o break decisivo de Mensik, que desde então controlou os trocas, serviu com segurança e manteve a iniciativa. Foram evidentes, nesse trecho, a capacidade de impor ritmo e a resistência tática que Bertolucci destacou.
A derrota de Sinner também permite leituras mais amplas. Nos dois primeiros torneios do ano, o italiano não chegou à final. Como observa Bertolucci, isso pode ser resultado de flutuações físicas e mentais, ou de tentativas de incorporar novas variações ao repertório — mudanças que momentaneamente reduziriam a confiança competitiva. É um lembrete do que sempre vimos no esporte: ciclos de subida e queda exigem recalibração.
Do ponto de vista histórico e cultural, a ascensão de Mensik interessa por duas razões. Primeiro, reaviva uma tradição centro-europeia de formação técnica que se adapta ao tênis moderno, combinando potência e raciocínio. Segundo, altera a geografia simbólica do circuito: enquanto o debate entre Sinner e Alcaraz mobiliza narrativas nacionais e comerciais, a emergência de um tcheco reforça a ideia de que a renovação do top mundial pode vir de lugares com escolas consolidadas, não apenas de talentos midiáticos.
Em resumo: não se trata de coroar um sucessor prematuramente, mas de reconhecer um jogador que, por equipamento técnico e temperamento, merece ser observado com cuidado — e, segundo Bertolucci, até mesmo com alguma aposta moderada. O tempo e a consistência dirão se Mensik será o terceiro elemento a disputar de modo persistente a supremacia entre Sinner e Alcaraz, ou apenas mais uma boa história de temporada.






















