Por Otávio Marchesini, Espresso Italia.
Entre um treino intenso e a rotina de recuperação, a imagem que Franziska Stocker guarda das Olimpíadas Milano‑Cortina 2026 não é apenas a de um placar ou de uma tática vencedora, mas de pequenos rituais que ancoram um time em meio ao turbilhão de emoções. Em entrevista ao AdnKronos, a atleta da seleção feminina italiana — a ItalHockey — rememora o que ficará para sempre: “ver atletas que sigo nas redes sociais e depois me encontrar a comer ao lado deles”. É nessa proximidade que se mede a dimensão social do evento.
O que permanece, pergunta‑se, do legado das provas em casa para o hóquei italiano? Stocker responde com a sobriedade de quem observa cenários: jogar diante de 11 a 14 mil pessoas em Santa Giulia foi “um sonho realizado” e um sinal claro de que o esporte entrou no imaginário coletivo. “Sinto que entrámos no coração dos nossos fãs e espero que o hóquei italiano consiga surfear esta onda e trazer cada vez mais adeptos”, diz ela. São feitos concretos — duas vitórias e o êxtase das arquibancadas — que podem traduzirse em reconhecimento, patrocínios e maior base de formação no país.
Diariamente, a vida de uma jogadora no torneio oscilava entre disciplina e pequenos excessos ritualizados. Se o jogo era à tarde, pela manhã não havia sessão no gelo, apenas uma ativação: caminhada, mobilidade, explosão muscular. No almoço, a escolha do que comer não era apenas nutrição, mas uma superstição profissional. “Sempre tentamos comer a mesma coisa, um pouco por superstição e um pouco para garantir o que o corpo precisa”, conta Stocker. O hóquei é reconhecido por um dispêndio calórico enorme — regimes com 5‑12 g de carboidratos por kg de peso corporal são comuns entre as atletas — e muitas jogadoras trabalham com nutricionistas para equilibrar a exigência metabólica.
Em meio à logística e à preparação tática comandada pelo treinador Bouchard, havia momentos de normalidade que funcionavam como válvulas de escape: um caffè macchiato ao sol após o almoço, conversas que não tocavam em estratégias mas em trivialidades do dia a dia, pequenas rotinas que restauravam a humanidade das atletas. Foi nesse compasso que se construíram relações dentro da vila olímpica, lembrando que o esporte é também convivência.
Um episódio que Stocker destaca é a relação com as adversárias: o confronto com os Estados Unidos foi duro em campo, mas terminou com grande demonstração de fair play. Essas imagens são parte do que define hoje o hóquei feminino italiano: competitividade elevada, visibilidade ampliada e uma responsabilidade nova. “Mundiais? Agora temos um belo alvo em cima de nós”, resume Stocker, com a lucidez de quem sabe que a atenção pública pode ser combustível e pressão ao mesmo tempo.
Se as arquibancadas de Santa Giulia provaram que há público e paixão, o desafio agora é transformar esse momento em estrutura, formação e memória coletiva. O que para muitos foi um momento efêmero — o brilho olímpico — precisa desdobrar‑se em políticas locais, calendários competentes e investimento em bases. Só assim o fruto colhido em casa terá raízes suficientes para perdurar.
Ao fim, fica a imagem mais humana: a jogadora que escolhe um prato por superstição, o café ao sol, as risadas com colegas, a sensação de ter sido vista. Pequenos sinais que, juntos, contam uma história maior — a de um desporto que, por sua velocidade e intensidade, revela também as ambições e contradições de um país que aprende a amar novas tradições esportivas.






















