Faltam poucos dias para o que Laura Pausini descreve como “a mais louca das minhas aventuras profissionais”. Em postagem nas redes sociais, a cantora italiana anunciou sua estreia como co-apresentadora de Sanremo 2026 na Rai1, ao lado de Carlo Conti, marcada para 24 de fevereiro. A mensagem, escrita com a sensibilidade de quem conhece o palco como um espelho do próprio tempo, atravessa críticas, memórias e um gesto simbólico de fechamento de ciclo.
Paiva-se àquilo que já havia acontecido nas últimas semanas: a repercussão em torno dos dois singles-tributo a Grignani e Mengoni incluídos em seu novo disco. Com a serenidade de quem já viveu diversas versões de si mesma diante do público, Laura Pausini lembra que conhece o Festival “desde que nasceu”: as canções, os apresentadores, as cenografias e — sobretudo — as palavras que acompanham cada retorno ao palco. “Saberei ler as palavras que serão escritas ao meu lado: bela e feia, simpática e antipática, capaz e incapaz”, escreveu a artista, antecipando o manancial contraditório que sempre cerca figuras públicas.
Essas linhas não soam apenas como defesa: são um reframe, uma recusa a permitir que o roteiro alheio determine a experiência íntima de um momento histórico em sua carreira. Pausini confessa que estudou, se preparou e aprendeu, com custos emocionais, a perdoar os próprios erros. “Sei que estou pronta para aceitar também os meus equívocos”, diz ela, acrescentando: “Com muita humildade, espero merecer este papel e não permitirei a ninguém estragar este momento único da minha vida”.
O tom da mensagem é, ao mesmo tempo, celebratório e contemplativo. A cantora, que se apresentou na cerimônia inaugural de Milano Cortina, deseja um festival repleto de emoções, diversão e — acima de tudo — de música nova que venha a fazer parte do nosso futuro musical.
O enlace entre Laura Pausini e Sanremo não é novidade: ele nasce em 1993, quando ela, ainda muito jovem, estreia no Ariston na seção Novos com “La solitudine“, música que vence e rapidamente se transforma em clássico da canção italiana. Em 1994, ela retorna entre os Big com “Strani amori”, alcançando o terceiro lugar. Essas passagens escrevem um roteiro emocional que agora ganha uma cena final — ou melhor, um novo ato.
Curiosamente, Pausini revelou em entrevista à vigília do festival que por cerca de quinze anos recusou convites para apresentar a kermesse: havia um medo profundo ligado ao palco e à pressão simbólica daquele momento. A virada veio através de Pippo Baudo, diretor artístico da edição que a consagrou aos 18 anos. Foi ele quem a encorajou com um simples, porém pesado, conselho: “não pense nisso, você está pronta” — palavras que tiveram a força de uma bênção para fechar o círculo com Sanremo.
Na leitura cultural que proponho, essa aceitação é mais do que um retorno: é um gesto de reconhecimento da própria história, uma reapropriação do palco que a formou. Em tempos em que o zeitgeist se escreve em cliques e manchetes efêmeras, a presença de Laura no Ariston funciona como um espelho que nos convida a olhar não só para a celebridade, mas para a narrativa coletiva que a música italiana continua a tecer.
Que venha, então, um festival de som e sentido — um cenário de transformação onde o passado e o futuro convivem no mesmo compasso.






















