Por Marco Severini, Espresso Italia
Bruxelas — Em um discurso que combina diagnóstico histórico e proposta estrutural, a presidente do Banco Central Europeu, Christine Lagarde, traçou o que podemos chamar de um movimento estratégico no tabuleiro da governança global: é preciso reformar o WTO para restaurar a confiança entre as nações e impedir que rupturas unilaterais desestruturem a ordem internacional.
Falando na Columbia Law School, Lagarde lembrou que “both law and business are institutional systems built on trust supported by authority”, apontando que é alarmante quando a confiança entre nações começa a se erodir. Em linguagem de diplomata-cartógrafo, descreveu o atual estado das relações comerciais como um “redesenho de fronteiras invisíveis”: não um novo sistema consensual, mas um retorno a antigos modelos de coerção e mercantilismo — uma estratégia que, segundo ela, não corresponde à vontade da maioria dos países.
O recado é explícito ao centro do poder norte-americano: a administração de Donald Trump tem sido, na visão de Lagarde, o ator que acelerou a perda de confiança. “Os Estados Unidos, que haviam subscrito o sistema por décadas, começaram a duvidar de que as regras operavam a seu favor. E quando o garante de um sistema perde a fé, o sistema entra em crise”, disse a presidente da BCE.
Lagarde sublinhou a vulnerabilidade da interdependência global: quando ela permanece, mas a confiança se rompe, ações unilaterais geram represálias e risco de fragmentação. Citou estimativas do FMI (Fundo Monetário Internacional) segundo as quais uma grave fragmentação comercial poderia reduzir a produção global em até 7% do PIB; com um desacoplamento tecnológico, as perdas em alguns países poderiam atingir até 12%.
Do ponto de vista histórico e estratégico — como quem lê os tabuleiros que precedem as grandes rupturas — Lagarde recordou que desequilíbrios entre potências precederam episódios violentos no passado. Por isso a alternativa que propõe não é a complacência, mas uma reconstrução mais resiliente do sistema: atualizar o WTO para que cumpra sua função de árbitro das regras do comércio.
O momento político-institucional é iminente. Os ministros do comércio se reunirão em Camarões, de 26 a 29 de março, para discutir o futuro da Organização Mundial do Comércio — uma janela que Lagarde classifica como oportunidade para uma reforma que trate de pontos centrais de equidade e regras.
Entre as prioridades indicadas, a presidente da BCE citou a necessidade de abordar a questão das exceções e status especiais: é insustentável que um país do porte da China receba tratamentos previstos para economias muito mais pobres. Ao mesmo tempo, reconheceu que a União Europeia tem suas responsabilidades na fragilidade atual do sistema.
Em termos práticos, a proposta de Lagarde é um movimento de longo prazo: reconstruir autoridade e confiança institucional por meio de regras revistas, não por meio de hegemonias unilaterais. Em linguagem de estrategista, é preferível reforçar os alicerces da diplomacia econômica do que aceitar a tectônica de poder que promove fragmentação e risco sistêmico.
O desafio, conclui Lagarde, é evitar que a erosão da confiança transforme a interdependência em rivalidade sistêmica. O convite é claro: transformar um momento de crise em ocasião para um novo contrato multilateral. No tabuleiro global, quem quiser preservar estabilidade deve mover-se agora para recompor as regras antes que a partida se torne irreversível.






















