Por Aurora Bellini, Espresso Italia — À medida que o aquecimento global impulsionado pelo homem acelera, cientistas acendem um alerta claro sobre a fragilidade da Antártica e, em especial, da Península Antártica, sua ponta mais setentrional. Um novo estudo publicado na revista Frontiers in Environmental Science modelou cenários possíveis — do mais otimista ao mais severo — mostrando como escolhas atuais determinarão o destino deste continente e do resto do planeta.
Os pesquisadores analisaram três trajetórias de emissões: um cenário de baixas emissões (aumento médio de 1,8°C até 2100 em relação à era pré-industrial), um cenário de emissões médio-altas (3,6°C) e um cenário de emissões muito elevadas (4,4°C). Em cada rota, foram avaliados oito componentes do sistema da Península Antártica, incluindo os ecossistemas marinhos e terrestres, o gelo terrestre e marinho, as plataformas de gelo, o Oceano Austral, a atmosfera e a frequência de eventos extremos como ondas de calor.
Os resultados não deixam espaço para falsas esperanças. Nos cenários de maiores emissões, o Oceano Austral aquece mais rapidamente. Águas mais quentes erodem o gelo tanto em terra quanto no mar, amplificando o risco de colapso de plataformas de gelo e acelerando a elevação do nível do mar. Esse aumento do nível do mar já é conhecido por intensificar inundações costeiras e a erosão de litorais: para cada centímetro adicional de subida, cerca de seis milhões de pessoas globalmente ficam mais expostas a inundações costeiras.
O estudo revela ainda que, no pior cenário de emissões, a extensão do gelo marinho pode cair até 20%. Essa retração tem efeitos em cascata: espécies que dependem do gelo, como o krill — peça-chave da cadeia alimentar para baleias e pinguins — veriam seu habitat drasticamente reduzido. O aquecimento oceânico também pressuriza ecossistemas, aumentando a probabilidade de eventos meteorológicos extremos, um fenômeno que já foi ligado, em análises científicas recentes, a episódios de chuva intensa e inundações em outras regiões do mundo.
Os autores observam que prever exatamente como essas mudanças interagirão e afetarão cada espécie é complexo. Muitas comunidades animais provavelmente migrarão para latitudes mais ao sul em busca de refúgio térmico. Predadores de sangue quente podem ter alguma margem de adaptação, mas seu sucesso dependerá da disponibilidade de presas e de condições de habitat adequadas — recursos agora ameaçados.
Como curadora de progresso, vejo neste estudo a luz que ilumina escolhas fundamentais: reduzir emissões não é apenas um imperativo ambiental, é um ato de legado para as próximas gerações. As decisões políticas e industriais que tomamos hoje semeiam os cenários que amanhã colheremos. Existe um horizonte límpido onde a ação climática consistente evita os impactos mais danosos; e existe, infelizmente, um caminho de aceleração do dano se continuarmos no ritmo atual.
Em termos práticos, o trabalho reforça a urgência de políticas que reduzam a queima de combustíveis fósseis, protejam corredores marinhos e fortaleçam a resiliência costeira das comunidades mais expostas. Iluminar novos caminhos exige combinar ciência rigorosa, compromisso público e inovação tecnológica — um esforço coletivo para cultivar valores que preservem tanto o gelo quanto as pessoas que dependem dos mares.
O que acontece na Antártica não fica isolado; suas mudanças reverberam pelos oceanos, pela atmosfera e pelas vidas humanas e não humanas em escala planetária. A escolha é nossa: mitigar e adaptar, ou assistir ao desenrolar de cenários cada vez mais severos. É hora de agir com clareza e ambição — por um renascimento cultural e ambiental que proteja esse tesouro polar e o futuro que ele sustenta.






















