Por Riccardo Neri — O Departamento de Estado dos Estados Unidos aparece nos bastidores como autor de uma iniciativa destinada a preservar a liberdade digital para cidadãos europeus: um portal online registrado em 12 de janeiro com o domínio Freedom.gov. A página provisória, que mostra a mensagem “Freedom is coming” parcialmente obscurecida até ser ativada pelo cursor, traz também o lema “A informação é poder. Reivindique seu direito humano à liberdade de expressão”. Fontes citadas pela agência Reuters apontam que o objetivo seria oferecer meios para acessar conteúdos bloqueados na União Europeia ou por Estados-membros — incluindo materiais identificados como incitação ao ódio ou propaganda terrorista.
Segundo essa apuração, o serviço funcionaria essencialmente como uma VPN (rede privada virtual), técnica já difundida no mercado por provedores privados, que mascaram a origem do tráfego fazendo-o parecer proveniente dos Estados Unidos. Não há confirmação pública de que o portal oferecerá recursos técnicos além dos disponíveis em VPNs comerciais, nem detalhes sobre segurança, privacidade de logs ou soberania de dados.
O projeto, reportam as fontes, seria liderado pela subsecretária Sarah Rogers e esteve programado para ser apresentado na Conferência de Segurança de Munique na semana passada, mas a estreia teria sido adiada por preocupações internas no Departamento de Estado — versão que o próprio departamento tratou como não confirmada, em resposta à Reuters.
O pano de fundo é político e regulatório. A administração Trump e figuras como o vice-presidente JD Vance e a própria Rogers têm acusado repetidamente Bruxelas de restringir vozes conservadoras por meio de instrumentos como o Digital Services Act. A legislação europeia exige que plataformas de grande alcance limitem ou removam conteúdos classificados como incitação ao ódio, propaganda terrorista ou desinformação, e tem resultado em pedidos regulares de remoção de conteúdo a empresas sediadas nos EUA. Em dezembro, a plataforma X, controlada por Elon Musk, sofreu multa de 120 milhões de euros por descumprimento dessas regras.
Do ponto de vista técnico e geopolítico, a proposta — se confirmada — confere aos EUA um papel direto na arquitetura de acesso à informação na Europa, deslocando para uma autoridade estrangeira a função de “tunelamento” do tráfego. Isso levanta questões sobre responsabilização, proteção de dados e interseção entre soberanias digitais: uma VPN governamental americana poderia estar sujeita a regras e solicitações norte-americanas sobre logs e cooperação judicial, e ao mesmo tempo alterar o alcance extraterritorial das decisões de moderação europeias.
Há também um componente de narrativa estratégica. Um documento da Casa Branca citado recentemente afirmava que certas políticas europeias de migração colocariam em risco a “destruição da civilização” e que os EUA priorizariam fomentar resistência à direção política europeia dentro das sociedades do continente. Nesse contexto retórico, um portal para burlar restrições pode funcionar tanto como ferramenta técnica quanto como mensagem política.
Em termos de infraestrutura, governos privilegiando o uso de VPN ou serviços de encaminhamento são tentativas de intervir diretamente no “sistema nervoso” da internet: camadas de roteamento e identidade digital que determinam quem vê o quê e de onde. Resta saber se o portal traria inovações — por exemplo, garantias técnicas reforçadas de privacidade, políticas claras de minimização de dados e transparência operacional — ou se seria, na prática, mais um túnel estatal sobre um ecossistema já povoado por soluções privadas.
Enquanto isso, o incidente revela tensões latentes entre modelos regulatórios: a UE, focada em proteção contra discurso de ódio e desinformação por meio de regras sobre plataformas; e setores da administração americana, que interpretam essas regras como censura. Para quem vive na Itália e na Europa, a questão se materializa na fronteira entre direitos digitais, soberania e a arquitetura invisível que sustenta o fluxo de informação transatlântico.






















