Com 55 anos, Simone Mottini encarna uma ponte entre a gênese do freestyle e a sua institucionalização olímpica. Hoje chief of race office da Fondazione Milano Cortina para as competições de moguls e aerials em Livigno, Mottini descreve com calma e precisão como um esporte nascido na margem dos circuitos oficiais se transformou num produto complexo, certificado e global.
“Quando gareggiávamos décadas atrás — conta Mottini — nos queixávamos da neve, das gobbe, dos salti. Não tínhamos noção do que havia por trás dos Jogos Olímpicos”. A imagem é de um tempo em que a prática ainda experimentava limites técnicos e riscos não mitigados. Mottini competiu nos Juegos Olímpicos de Albertville 1992, na prova de gobbe, mas a sua história começa muito antes, nas encostas de Livigno, sob a influência de seu pai, Sandro, um dos primeiros mestres de esqui da localidade e fundador de uma escola que privilegiava a criatividade sobre a rigidez.
O percurso do sci acrobatico rumo ao palco olímpico foi relativamente breve: prova demonstrativa em Calgary 1988 e entrada oficial no programa em 1992. Desde então, o esporte sofreu mudanças radicais. “No ’94 eu competia sem capacete”, recorda Mottini. “Não podíamos fazer mortais com a cabeça virada sob os esquis. Hoje as rotações, os avitamentos e a preparação são milimétricos. A técnica mudou, a segurança evoluiu e a exposição mediática transformou tudo”.
A profissionalização também alterou o mapa competitivo. Se França e Itália eram pioneiras, a globalização abriu espaço para nações como a Austrália, que hoje investe massivamente no freestyle, por vezes mais até do que no esqui alpino, colhendo resultados de alto nível. “O salto que antes dependia de uma cuneta bem escolhida agora é projetado nos mínimos detalhes”, observa Mottini, enfatizando a crescente relação entre ciência do treinamento, engenharia e espetáculo televisivo.
Entre os marcos recentes, o bronze de Flora Tabanella no big air — primeira medalha olímpica italiana no freestyle — assume significado histórico e cultural. Tabanella, jovem e de execução instintiva, provou que o presente pode gerar sucessos duradouros: “Ela havia esquiado pouco antes dos Jogos, mas a naturalidade era impressionante. O freestyle é dela”, comenta Mottini, que vê na conquista um reflexo da maturidade do movimento italiano.
No papel de organizador, Mottini fala menos de heroísmos e mais de processos: segurança, logística, regia televisiva, certificações, procedimentos operativos. “As Olimpíadas são um organismo complexo. Cada detalhe precisa ser afinado, validado e partilhado. Ver a máquina funcionar por dentro causa impacto. Quando tudo roda como deve, é entusiasmante, mas exige responsabilidade”, diz.
Como analista, prefiro situar essa transformação além dos méritos individuais. O desenvolvimento do freestyle conta uma história sobre profissionalização, mercados mediáticos e escolhas institucionais que redesenham identidades regionais e investimentos nacionais. Em Milano Cortina 2026, o freestyle não é apenas um espetáculo: é a prova de que uma prática nascida na periferia técnica do esqui clássico pôde reinventar-se e reclamar um espaço simbólico nas arenas olímpicas — e que essa reinvenção requer tanto coragem atlética quanto rigor organizativo.
Para Mottini, o ciclo fecha-se com naturalidade: do atleta que reclamava das condições de prova ao gestor que garante que essas mesmas condições obedecem hoje a padrões internacionais. E, nesta passagem, o esporte revela-se menos como sucessão de pódios e mais como espelho das mudanças coletivas que atravessam a Itália e a Europa.






















