Bruxelas — Um novo relatório da ONG Foodrise expõe um deslocamento estratégico e financeiro que molda o sistema alimentar europeu: em 2020, a Política Agrícola Comum (PAC) destinou recursos muito superiores à produção animal em comparação com a produção vegetal, reforçando um desenho de incentivos que tem consequências climáticas e sanitárias palpáveis.
Segundo o estudo intitulado “La PAC al bivio – Riformare i sussidi della PAC europea per sostenere regimi alimentari salutari e sostenibili”, os setores bovino e ovino receberam, naquele ano, subsídios 580 vezes maiores do que cultivos de leguminosas como lentilhas e feijões: aproximadamente 8 bilhões de euros versus apenas 14 milhões de euros. No mesmo sentido, o setor laticíneo obteve 554 vezes mais apoio financeiro do que culturas de nozes e sementes — cerca de 16 bilhões de euros contra 29 milhões de euros.
No agregado, os cálculos de Foodrise para o encerramento do ciclo PAC 2014–2020 mostram que a soma destinada à carne e aos laticínios foi de aproximadamente 39 bilhões de euros, o que representa cerca de 77% dos fundos PAC e 23% do orçamento total da UE para 2020. Em contraste, produtores de frutas e verduras receberam apenas ~3,6 bilhões, enquanto a cadeia dos cereais obteve ~2,4 bilhões.
Do ponto de vista da emissões, a escolha de prioridades é significativa. A pesquisa recorda que alimentos de origem animal respondem por uma parcela estimada entre 81% e 86% das emissões de gases de efeito estufa vinculadas à produção alimentar na UE, pese embora representem cerca de 32% da ingestão calórica média e 64% das proteínas consumidas na Europa. Em termos comparativos, a carne bovina gera emissões por grama de proteína entre 21 e 62 vezes maiores do que os legumes.
Uma das chaves desse viés estrutural é o critério utilizado para alocar pagamentos: o montante frequentemente se liga à dimensão da exploração. A técnica de alocação acaba por beneficiar a produção animal, que demanda maiores superfícies — tanto para pasto como para cultivo de ração —, reforçando um ciclo em que a extensão territorial equivale a maior suporte financeiro.
Martin Bowman, responsável por campanhas na Foodrise, qualificou como “escandaloso” o descompasso entre o financiamento público (proveniente dos contribuintes europeus) e os objetivos de saúde pública e sustentabilidade climática. Em termos práticos, Bowman defende que os subsídios devem ser redirecionados para apoiar com maior equidade as proteínas vegetais e as culturas que contribuem para dietas mais saudáveis e emissões reduzidas.
Na perspectiva geopolítica e de governança — como gosto de frisar — trata-se de um movimento decisivo no tabuleiro da política europeia: não é simplesmente uma questão de números, mas de como os incentivos financeiros desenham comportamentos produtivos, padrões de consumo e, em última instância, a capacidade da UE de cumprir suas metas climáticas. A atual tectônica de poder agrícola favorece interesses consolidados; reformá-la exige coragem política e um redesenho dos alicerces da diplomacia agroalimentar.
O relatório da Foodrise coloca, portanto, um dilema estratégico diante dos formuladores de políticas: manter os fluxos de apoio que sustentam modelos intensivos em emissões ou reposicionar a PAC para priorizar sistemas alimentares resilientes, de menor intensidade carbônica e mais alinhados com metas de saúde pública. No xadrez europeu, cada alteração nos subsídios é um movimento que redefine fronteiras invisíveis de influência entre setores, regiões e consumidores.
Para leitores e decisores: a questão não é apenas técnica, é estrutural. A redistribuição dos subsídios pode ser a peça que falta para transformar metas climáticas em práticas agrícolas reais — ou pode consolidar, por mais alguns anos, um status quo caro ao clima e à saúde coletiva.






















