Por Chiara Lombardi — Em um gesto que parece arrancado de um roteiro cinematográfico, a coreógrafa e professora Susanna Egri celebra 100 anos no dia 18 de fevereiro. A sua trajetória é um espelho do século XX e de suas aberturas para o presente: uma vida dedicada à dança que cruza exílio, encontros artísticos europeus e um compromisso inabalável com a transmissão do saber.
Filha de Ernst Egri Erbstein, o treinador do grande Torino que morreu na tragédia de Superga, Susanna traz na memória familiar um ensinamento que se transformou em método de vida. “Meu pai me ensinou a não me render”, disse ela em entrevista, lembrando que, mesmo nos anos de exílio na Hungria durante as perseguições raciais, recebeu dele o incentivo para estudar e seguir adiante. Esse princípio — “não abdicar da paixão” — orienta sua prática como professora e coreógrafa há quase um século.
Figura pioneira da modernidade coreográfica italiana, Susanna Egri abriu com passos a estreia das transmissões da Rai em 1954 e construiu uma carreira marcada por colaborações com nomes centrais da dança europeia, como Vera Volkova, Boris Kniaseff, Mary Wigman e Kurt Joos. Fundadora da companhia EgriBiancoDanza, uma das mais duradouras do país, ela manteve-se ativa como criadora e pedagoga — posição que rendeu recentemente à companhia o reconhecimento do Ministério da Cultura: há dois anos o grupo foi elevato a Centro di Rilevante Interesse per la Danza pela Direzione Generale Spettacolo dal Vivo.
Ao aproximar-se do centenário — marco que apenas figuras extraordinárias como Ninette de Valois (fundadora do Royal Ballet, falecida aos 103 anos) alcançaram no universo da dança — Susanna não diminui o ritmo. “Transmitir e adquirir saber, mesmo na minha idade, é o que eu continuo a fazer”, afirmou. Essa reafirmação do gesto pedagógico transforma seu aniversário em um projeto cultural que entrelaça memória e criação, história pessoal e participação coletiva.
As celebrações terão início na noite do próprio 18 de fevereiro, às 21h, no Teatro Il Maggiore, em Verbania, dentro da temporada ‘Maggiore Danza’. O programa propõe um encontro entre passado e presente: a reprise de Istantanee (1953), obra-símbolo da juventude artística de Susanna — nascida sobre música original de Paul Arma —, e a estreia da nova criação de Raphael Bianco, Cantata Profana: Il Cervo Fatato, dedicada à homenageada.
A nova peça de Bianco é inspirada na Cantata Profana de Béla Bartók, cujo núcleo narrativo remonta a uma antiga lenda da Transilvânia sobre nove cervos encantados. Segundo o criador, o balé traz elementos autobiográficos — uma ecoatura simbólica que casa perfeitamente com o traçado biográfico de Susanna: atravessar fronteiras, recolher tradições e reelaborá-las em linguagem contemporânea.
O centenário de Susanna Egri é, portanto, mais que uma festa pessoal. É um projeto cultural difuso que convoca artistas, públicos e gerações a pensarem a dança como arquivo vivo e laboratório de futuro. Em tempos em que a cultura se debate entre preservação e renovação, a figura de Susanna funciona como um reframe: mostrar que a continuidade — a transmissão do saber — é também o motor da inovação.
Enquanto o palco de Verbania se prepara para receber essa noite de reverência e criação, permanece a imagem de uma professora que, com elegância e rigor, ainda ensina: não se render, persistir no ofício e transformar a memória em movimento. Se a dança é o roteiro oculto da sociedade, a história de Susanna Egri é uma cena principal desse roteiro.






















