Por Stella Ferrari — Em evento que celebrou os 50 anos da Acer em Milão, Luca Bendazzoli, diretor de Business Consumer para Itália e Ibéria, traçou um diagnóstico claro sobre o atual mercado de hardware: a forte demanda das big techs por soluções de inteligência artificial está comprimindo a oferta de memórias RAM, pressionando preços e alterando a geografia competitiva do setor.
Segundo Bendazzoli, a combinação clássica de demanda crescendo além da capacidade de fornecimento tem provocado um aumento contínuo nos custos das componentes. O efeito prático, observa ele, será uma redução da disponibilidade de produtos, especialmente nas faixas de entrada — tanto para produtos consumer quanto para produtos gaming. “Onde a elasticidade do preço é baixa, vemos escassez. Isso afetará sobretudo a camada mais acessível do mercado”, afirmou o executivo.
Da análise emerge, porém, uma oportunidade estratégica: o espaço liberado na base do mercado poderá ser ocupado por Chromebook. Com consumidores preservando o orçamento que pretendem gastar em tecnologia, mas enfrentando produtos Windows menos competitivos no segmento inferior por conta do aumento dos custos de componentes, os Chromebook tendem a ganhar tração. “Haverá muito menos concorrência de produtos Windows na parte baixa do mercado”, explicou Bendazzoli, projetando um ganho de participação para dispositivos mais leves e dependentes do Cloud.
Ao mesmo tempo, há uma contração evidente na oferta de máquinas gaming em torno da faixa de preço de 1.000 euros. “Os custos dos componentes hoje não permitem oferecer produtos competitivos nessa faixa”, alertou o diretor, apontando para uma lacuna concreta entre desempenho e preço que pode retardar o acesso do consumidor a modelos intermediários de alto desempenho.
Um ponto estrutural relevante destacado na apresentação foi a melhoria da conectividade. A evolução das redes e da capacidade de armazenamento em nuvem reconfigura a lógica de aquisição: não é mais necessário priorizar um PC com configuração máxima para armazenar e processar localmente. Assim, dispositivos concebidos para operar com maior integração ao Cloud, como os Chromebook, tornam-se alternativas eficientes, com menor dependência de memória local e maior foco em experiência de uso.
A Acer, segundo Bendazzoli, foi antecipadora dessa mudança e mantém liderança no segmento de Chromebook na Itália. “Como líderes, queremos conservar e consolidar essa posição”, concluiu. Do ponto de vista de estratégia industrial, a situação atual é uma questão de calibragem fina: fabricantes e distribuidores precisam ajustar portfólios e cadeia de suprimentos para responder tanto ao choque de custos — o freio fiscal que pressiona margens — quanto às janelas de oportunidade onde a demanda migra para soluções mais leves e baseadas em nuvem.
Em termos macro, a escassez de memórias RAM é um lembrete de que o motor da economia digital está sujeito a gargalos de oferta que reverberam desde as linhas de montagem até os consumidores finais. Para empresas com visão de longo prazo, a chave é otimizar design de produto e cadeia, aproveitando a aceleração de tendências para reposicionar marcas no alto da curva de valor.
Como estrategista, vejo essa dinâmica como uma fase de recalibração de mercado: enquanto os custos empurram para cima, a conectividade e o Cloud oferecem novas alavancas para desempenho percebido, abrindo espaço para modelos de produto que combinam eficiência de custo com experiência superior.






















