Bruxelas – Um novo estudo divulgado em 18 de fevereiro pela organização independente Climate Central revela que o incremento das temperaturas globais, somado à redução progressiva das chuvas, está severamente ameaçando as plantações de café em escala mundial. O resultado é a clássica conjunção de produção em queda e preços em alta, com efeitos que se propagam do campo até a xícara do consumidor.
Segundo Kristina Dahl, vice‑presidenta de Ciência da Climate Central, “quase todos os principais países produtores estão agora experimentando um número maior de dias de calor extremo que pode danificar as plantas de café, reduzir as safras e comprometer a qualidade dos grãos”. Em linguagem de diplomacia do clima: trata‑se de um movimento decisivo no tabuleiro que redesenha, silenciosamente, as linhas de abastecimento e valor do mercado mundial do café.
O estudo concentra‑se nos 25 maiores países produtores, responsáveis por 97% da produção global. Para quantificar o impacto climático foi utilizado um indicador ad hoc, o Climate Shift Index, que demonstra a intensificação de condições atmosféricas adversas para o cultivo do café. Entre 2021 e 2025, todos esses países registraram aumento no número de dias com temperaturas acima do limiar crítico – estabelecido em torno de 30 °C – expondo as plantações ao chamado estresse por calor.
O mecanismo físico é direto: quando a temperatura ambiente excede o ponto de tolerância das plantas de café, a fotossíntese e os ciclos de maturação dos frutos são alterados, reduzindo rendimento e qualidade. A ausência prolongada de precipitações, por sua vez, agrava a situação. A Climate Central lembra que uma pluviosidade anual entre 150 e 200 cm é o intervalo ideal; desvios nessa pauta implicam quedas de produtividade. A seca registrada no Brasil em 2023 foi apontada como um fator associado aos picos de preço observados no período.
Dados do Banco Mundial citados no relatório ilustram a pressão sobre o mercado: entre 2023 e 2025 os preços dos grãos de Arabica e Robusta quase dobraram. O Arabica saiu de US$ 4,54 por quilo em 2023 para US$ 8,47 em 2025; o Robusta, de US$ 2,63 para US$ 4,86 no mesmo intervalo, com um ápice atingido em fevereiro de 2025 – mês em que se registrou o preço histórico mais alto.
Do ponto de vista geoestratégico, estes números são mais que estatística: representam um redesenho de fronteiras invisíveis entre oferta e demanda, com implicações para produtores, refinadores, traders e consumidores finais. Países dependentes do café como fonte de divisas veem seus alicerces econômicos fragilizados por variações climáticas que, na verdade, refletem uma tectônica de poder entre padrões meteorológicos e políticas agrícolas.
As recomendações técnicas do estudo incluem monitoramento climático mais fino, investimentos em variedades mais resilientes e práticas agrícolas que conservem solo e água. Contudo, a transição exige tempo, capital e coordenação internacional — recursos que nem sempre estão disponíveis nos países produtores mais vulneráveis.
Como analista que observa o tabuleiro com atenção, sublinho que o choque citado pela Climate Central não é apenas uma crise de oferta momentânea: é um sintoma de uma mudança estrutural que impõe decisões estratégicas a governos e ao setor privado. A estabilidade do mercado do café dependerá da capacidade coletiva de mitigar as causas climáticas e adaptar cadeias produtivas, evitando que a variação de preços se solidifique em volatilidade persistente.




















