Bruxelas – Estudar direito e acabar operando uma oficina; dominar a mecânica de motores e atuar como consultor de marketing; especializar-se em direito internacional e receber um salário de call center. Esses cenários, longe de serem ficção, traduzem um quadro persistente na União Europeia: o descompasso entre formação e mercado de trabalho.
Segundo dados do Eurostat referentes ao final de 2024, apenas 56,4% dos homens e mulheres entre 15 e 34 anos declararam trabalhar em uma função alinhada com as competências adquiridas no percurso educativo. Trata‑se de um fenômeno que atravessa níveis de instrução — desde o ensino secundário com formação pós‑escolar até quem concluiu o ensino superior — e revela uma desperdício de capital humano que impacta a tensão competitiva dos países.
O caso mais preocupante é o da Itália, que apresenta o menor índice da União: apenas 41,6% dos jovens nessa faixa etária dizem ter encontrado ocupação coerente com o que estudaram. É o pior desempenho entre os Estados‑membros, com folga em relação à Eslováquia, que figura em penúltimo lugar com 46,2%.
O relatório do instituto estatístico europeu aponta também setores com correspondência mais sólida entre estudo e trabalho. No campo da saúde e do bem‑estar, 80,6% dos jovens com nível de instrução elevado atuam em áreas estreitamente ligadas ao seu percurso académico. Informática e tecnologias de comunicação (TIC) apresentam 77% de correspondência, enquanto a educação chega a 73,6%.
Por outro lado, as formações com maiores dificuldades de colocação pertinente são as humanidades — onde 52,2% dos jovens com ensino superior relataram dificuldade em achar trabalho relacionado — seguidas pelas ciências sociais, jornalismo e informação (59,1% enfrentam dificuldades) e pelos setores de serviços (59,3%).
O diagnóstico do Eurostat sugere que o itinerário académico importa, mas não basta. Há, também, fatores estruturais: fraca articulação entre aprendizagem e necessidades produtivas, mecanismos de transição escola‑trabalho ineficazes, e mercados locais incapazes de absorver e valorizar competências específicas. Na linguagem da estratégia internacional, trata‑se de um movimento errático no tabuleiro: recursos humanos deslocam‑se, mas não ocupam posições que maximizem valor agregado.
Para além da constatação, a implicação política é clara. Países como a Itália enfrentam um duplo problema — perda de capital humano e desperdício de investimento público e privado em formação — que exige medidas de curto e médio prazo. Entre as opções plausíveis está o reforço de programas de formação profissional e aprendizagem, a aproximação curricular às demandas setoriais e a promoção de mecanismos de mobilidade interna e europeia que facilitem a correspondência entre oferta formativa e vagas qualificadas.
Do ponto de vista geopolítico e econômico, esse desalinhamento tem efeitos sobre a tensão competitiva dos Estados‑membros na Europa: alicerces frágeis na construção de capacidades tecnológicas e de saúde podem redesenhar fronteiras invisíveis de influência econômica. Sem um movimento decisivo no tabuleiro das políticas educativas e laborais, a UE continuará a ver grande parte de sua juventude subutilizada — um luxo que nenhum projeto de poder responsável pode se permitir.






















