Comissão Europeia anuncia que não marcará presença na cerimônia de abertura dos Jogos Paralímpicos de Inverno Milão-Cortina 2026, marcada para 6 de março na Arena di Verona. A decisão foi tornada pública em 18 de fevereiro pelo comissário europeu responsável por Juventude, Cultura e Desporto, Glen Micallef, e surge em resposta à resolução do Comitê Paralímpico Internacional (IPC) de permitir que um número limitado de atletas da Rússia e da Bielorrússia compita sob as suas respectivas bandeiras nacionais.
Segundo comunicado do IPC, divulgado em 17 de fevereiro, a medida alcançará um contingente reduzido: seis atletas russos, inscritos nas provas de esqui alpino, esqui cross-country e snowboard, e quatro atletas bielorrussos, todos do esqui cross-country. O Comitê assegurou que esses competidores “serão tratados como os demais atletas em competição”.
Na avaliação de Glen Micallef, a posição do IPC é “inaceitável” porque, enquanto persiste a agressão russa contra a Ucrânia, não é possível apoiar a reintegração de símbolos nacionais — bandeiras, hinos e uniformes — ligados aos Estados envolvidos no conflito. “São elementos que não se podem dissociar do teatro de operações”, advertiu o comissário, em termos que lembram um movimento decisivo no tabuleiro geopolítico: símbolos nacionais funcionam como peças cujo retorno altera percepções e instrumentos de influência.
O pronunciamento de Bruxelas ecoa a indignação manifestada por Kiev. O ministro ucraniano do Esporte, Matvii Bidnyi, qualificou a decisão do IPC como simultaneamente “decepcionante e ultrajante”, ao permitir que “assassinos e seus cúmplices” competam sob suas cores nacionais.
Convém lembrar a evolução normativa desde o início da invasão russa da Ucrânia, em 24 de fevereiro de 2022: naquela data iniciou-se um pilar sancionatório que incluiu a exclusão de atletas olímpicos e paralímpicos da Rússia e da Bielorrússia de competições internacionais. Posteriormente, a postura foi gradualmente mitigada — nos Jogos de Paris 2024 e nas Olimpíadas de Inverno Milão-Cortina, alguns competidores foram admitidos como “atletas individuais neutros” quando não demonstrassem apoio ativo à ofensiva militar ou vínculos com forças armadas e serviços de segurança.
O que sobressai agora é a ruptura radical dessa linha: pela primeira vez desde 2022, o IPC abriu caminho para uma concessão mais ampla, permitindo que representantes das duas nações se apresentem com suas bandeiras oficiais. Em setembro do ano passado, o Comitê já havia dado sinais nessa direção, anunciando intenção de suspender a medida de exclusão parcial; em dezembro, o Tribunal Arbitral do Esporte (TAS/CAS), em Lausanne, emitiu uma sentença que reconfigurou o quadro jurídico sobre matérias correlatas, contribuindo para a nova leitura do IPC.
Na perspectiva de estabilidade e projeção internacional, este episódio representa mais do que uma disputa sobre protocolo esportivo: é um movimento na tectônica de poder que redesenha fronteiras simbólicas. A escolha da Comissão Europeia de não participar da cerimônia funciona como um gesto diplomático calculado — um xeque simbólico no tabuleiro multilayer das relações internacionais, cujo alcance depende das reações dos atores envolvidos e da percepção pública global.
Enquanto se aproximam as datas de competição, a tensão entre integridade esportiva, pressões geopolíticas e decisões jurídicas continuará a moldar o palco das Paralimpíadas. O desenrolar desse capítulo fornecerá sinais importantes sobre os alicerces da diplomacia esportiva na era pós-invasão.






















