Bruxelas — Em um novo movimento que redesenha o tabuleiro político de Sofia, a presidente da República Ilijana Jotova anunciou, em 18 de fevereiro, a convocação de eleições parlamentares antecipadas para o dia 19 de abril. A decisão confirma um cenário que já vinha se delineando desde a nomeação, na semana anterior, do ex-vice-governador do Banco Nacional da Bulgária Andrey Gyrov como primeiro-ministro de um governo interino com a atribuição específica de conduzir o país às urnas.
Trata-se do oitavo pleito em cinco anos — um ritmo que reflete uma instabilidade política crônica. O governo anterior, liderado por Rosen Zeljazkov, do partido conservador Cidadãos para o Desenvolvimento Europeu da Bulgária (GERB), assumira em janeiro de 2025 após a vitória das urnas em outubro de 2024, mas foi forçado a renunciar em dezembro, pressionado por semanas de protestos contra a proposta de lei orçamentária.
A renúncia de Zeljazkov foi rapidamente seguida pela saída do presidente Rumen Radev — figura identificada como um dos principais opositores ao GERB — e, por isso, o nome de Radev surge com protagonismo na lista de prováveis candidatos para as próximas eleições parlamentares de abril. A sucessão de eventos aponta para um reposicionamento das forças políticas em que velhos e novos atores tentarão redesenhar alianças frágeis e coalizões voláteis.
Desde 2021 nenhum primeiro-ministro búlgaro conseguiu completar o mandato quadrienal previsto na Constituição. Esse padrão de sucessivas quedas de governos tem origem em fatores múltiplos: fragmentação do voto, coalizões frágeis, pressões sociais setoriais e uma crise de legitimidade que corrói a governabilidade. Em termos de geopolítica europeia, Sofia se encontra num momento sensível — a Bulgária passou a integrar a Eurozona em 1º de janeiro deste ano — e, ao mesmo tempo, entra num ciclo prolongado de eleições que inclui, após o pleito parlamentar, novas eleições presidenciais em razão da renúncia de Radev.
Para o observador estratégico, o que se desenha é uma disputa em múltiplas frentes: interna, por controle do aparato estatal e da agenda econômica; e externa, por influência na tessitura europeia, agora também condicionada pela nova filiação à zona do euro. As eleições de abril serão, portanto, um movimento decisivo no tabuleiro búlgaro — uma jogada que pode reforçar antigas linhas de força ou provocar um realinhamento das passagens de poder.
O cenário pós-eleitoral permanece incerto. A dispersão dos votos tende a produzir coalizões temporárias e frágeis, e a reeleição ou candidatura de figuras como Rumen Radev poderá intensificar a polarização. Paralelamente, a tarefa do governo interino de Andrey Gyrov é estritamente administrativa: garantir um trânsito constitucional estável até que o novo Parlamento se forme.
Em suma, a convocação para 19 de abril é tanto um reflexo das fragilidades institucionais búlgaras quanto um espelho das tensões que atravessam a arquitetura política da Europa Oriental. A Bulgária entra, nos próximos meses, num ciclo eleitoral extenso que testará os alicerces da sua diplomacia interna e a capacidade dos atores políticos de construir maiorias duradouras em um cenário de tectônica de poder em mutação.






















