Gabibbo, o icônico boneco que há 36 anos anima ‘Striscia la notizia’, foi pela primeira vez vítima de uma agressão física nas ruas. O incidente aconteceu em Milão, na segunda-feira, 9 de fevereiro: ao chamar a atenção de um jovem que não havia validado o bilhete do metrô, o pupazzo foi derrubado repetidas vezes e recebeu agressões que o deixaram estendido no chão.
A cena, exibida na edição de quinta-feira de ‘Striscia la notizia’ — cuja próxima quinta-feira marcará a última edição do programa — tem mais do que o choque imediato. Como observadora cultural, penso nela como um pequeno espelho do nosso tempo: se até um símbolo popular e caricatural pode ser agredido por uma razão tão prosaica, o roteiro oculto da sociedade está nos mostrando uma mudança de tom. No discurso do próprio personagem, há uma mistura de amargura e ironia.
Gabibbo comentou que não teme ser contestado por aquilo que representa. ‘Eu mereço ser agredido se sou símbolo de um certo populismo catódico’, disse ele, lembrando que seu personagem sempre encarnou a ‘pancia’ do público — um representante direto das emoções sem filtro. Mas a diferença, sublinha, está na motivação: não foi um gesto político ou simbólico; foi a pura e simples agressão de quem não aceita ser chamado à responsabilidade por não pagar o transporte.
O boneco lamentou que o ato revele uma normalização da violência: ‘Se é normal agredir professores, então também se torna aceitável maltratar um mestre de pensamento como eu’, afirmou, com a pitada de provocação que é sua marca. Não houve diálogo posterior com o agressor, e Gabibbo espera que o jovem não transforme o ataque em motivo de ostentação entre os colegas na escola — um sintoma, segundo ele, de uma vigliaccheria que se banaliza cada vez mais.
Em 1990, canta-se na sua persona uma frase provocadora — ‘Mi sei simpatico ti spacco la faccia’ — que, conforme ele explica, nasceu como um paradoxo para satirizar a violência de certos figuranti sociais, não como um modelo. Hoje, diz, a ironia está em crise: ‘Como todas as meias-medidas, a ironia morreu’. Essa observação funciona como um reframe da realidade: vivemos um tempo em que o gesto literal substitui a metáfora, o aplauso pela coragem dá lugar à celebração da agressividade.
‘Striscia la notizia’ sempre trabalhou a educação cívica como sua cifra. Das denúncias sobre estacionamento irregular em vagas para deficientes ao combate à evasão no transporte público, passando por esforços para frear batedores de carteira e expor fraudes, o programa tenta manter acesa uma chama de responsabilidade coletiva. Gabibbo lembra que, apesar de ser uma tentativa de conter abusos pontuais, há uma tendência mais ampla na sociedade: a prepotência avança, e a indignação muitas vezes não acompanha essa marcha.
Ao final, a reflexão que fica é menos sobre o boneco que caiu e mais sobre o cenário de transformação que o fez tombar. Se até um símbolo televisivo pode ser empurrado para o chão por um gesto cotidiano, devemos nos perguntar qual é o roteiro que estamos escrevendo enquanto comunidade. A violência banalizada é uma cena repetida, e cabe aos meios, às instituições e aos cidadãos reescreverem os próximos atos com mais ironia crítica, empatia e responsabilidade.
Chiara Lombardi, da Espresso Italia — observando o eco cultural que imagens como essa deixam em nosso cinema social e na memória coletiva.






















