Por Chiara Lombardi — Em um gesto que mistura memória pessoal e ambição social, Achille Lauro apresentou oficialmente em Milão a Fundação Madre, um projeto pensado para enfrentar o desgaste e o desamparo juvenil com ações concretas e comunidade como eixo. O artista, no entanto, falou em seu nome real, Lauro De Marinis, como quem reconstrói o próprio roteiro de vida para oferecê-lo a outros.
O anúncio, feito na Biblioteca Braidense, teve a mãe de Lauro, Cristina Zamboni, como presença inspiradora na primeira fila. Ao lado do sócio fundador Andrea Marchiori e da diretora geral Lorella Marcantoni, Lauro explicou que a fundação é “um grande sonho que está tomando forma”. Ele destacou que foi criado num ambiente onde os valores da acolhida e do afeto eram pilares: “Minha mãe me ensinou a acolher e a amar. Agora quero devolver aquilo que recebi quando eu precisava”, disse.
A primeira iniciativa concreta é a Casa Ragazzi Madre, prevista para Zagarolo, nos arredores de Roma — um espaço destinado a jovens de 11 a 21 anos em situação de risco. A coordenação ficará a cargo de don Giovanni Carpentieri, figura com vínculo histórico com a família de Lauro: ele evoca memórias de ações realizadas décadas atrás, quando mulheres em situação de rua eram acolhidas à mesa da casa da família. Esse eco do passado transforma-se, para Lauro, em legado e responsabilidade: “O que minha mãe e quem a cercava fizeram continua dando frutos”, afirmou.
Outra frente é o projeto Ali tra le corsie, que nasce de cerca de cinco anos de encontros com jovens em hospitais pediátricos e institutos de menores. São oficinas e intervenções pensadas para estar dentro das enfermarias e dos corredores — uma tentativa de modificar, pelo afeto e pela arte, o cenário rígido da institucionalização. Lauro confessou ter sentido medo na primeira visita a crianças gravemente doentes, mas reforçou que, em tempos complexos, agir coletivamente é urgente: “Não podemos pensar como indivíduos isolados; precisamos construir uma comunidade”.
Em um movimento que revela tanto estratégia quanto poesia social, Lauro pretende envolver colegas músicos e artistas nas atividades da fundação. Ele defende o mundo do rap contra estigmas: “O rap tem códigos e linguagens próprias, mas muitos artistas já atuam em projetos privados. Não se pode culpar a música por problemas sociais mais profundos — a arte é terapia e será naturalmente colocada a serviço”.
O timing público da apresentação não é casual. Enquanto se prepara para participar da cerimônia de encerramento das Olimpíadas e para subir ao palco de Sanremo como coapresentador, Lauro espera conseguir alguns minutos no programa para falar sobre a fundação: “Gostaria de ter dois ou três minutos fora de roteiro para apresentar o projeto”, revelou, indicando uma leitura estratégica da visibilidade como instrumento de mudança.
Há aqui um gesto simbólico do artista que retorna à cena social: não é apenas uma celebridade buscando boa ação, mas alguém que transforma a própria biografia em política cultural. A Fundação Madre nasce, assim, como um espelho do nosso tempo — um roteiro oculto que emergiu das cicatrizes pessoais e se converte em projeto coletivo. É a semiótica do viral aplicada ao cuidado: usar a linguagem do espetáculo para leiloar atenção e convertê-la em recursos de acolhimento.
No fundo, o que Lauro propõe é um reframe da realidade: a música e a arte que o projetaram como figura pública tornam-se instrumentos de reparação e encontro. Se a cultura é, como afirmo tantas vezes, o espelho do nosso tempo, a Fundação Madre quer agora moldar esse espelho para que ele reflita solidariedade, prevenção e trabalho comunitário — com a música como terapia e o ato de acolher como principal partitura.






















