Por Chiara Lombardi — Em uma cena onde a tradição muitas vezes pesa como um figurino herdado, Circo Zoé escolhe a costura consciente: reaprende, destrói e reconstrói o gesto circense para decifrar o mundo. A fundadora e intérprete Chiara Sicoli resume a proposta com clareza quase teatral: nenhum dos fundadores vem de dinastias de circo; a companhia aprendeu a matéria em escolas e ateliês, apropriando‑se do ofício sem o fardo de um legado impositivo.
No Teatro Donizetti a companhia italo‑francesa — formada por Sicoli, pelos bergamascos Simone Benedetti e Diego Zanoli — apresenta Deserance (amanhã às 20h30, única apresentação), espetáculo que assume a viagem como tema central. Não se trata de uma viagem no sentido paisagístico, mas de um percurso íntimo e coletivo: cada personagem desfila suas experiências por meio das disciplinas circenses e da música, compondo um roteiro físico que fala mais do que palavras poderiam dizer.
“O circo contemporâneo que propomos não tem a pretensão da competição atlética; a formação é de atletas, sim, mas a meta é a comunicação”, comenta Sicoli. É um circo de «poucas palavras», com forte componente física — um espetáculo pensado para atravessar idades: é acessível às crianças e substantivo para adultos exigentes. A simplicidade do gesto não é sinônimo de simplificação estética; pelo contrário, é um refinamento que busca a clareza expressiva.
O Donizetti, observa a artista, é “o teatro perfeito” para Deserance graças às suas dimensões e visibilidade necessárias para as imagens e as escalas que a peça pede. Há aqui um encontro entre arena circense e palco clássico: o espaço dramatiza a interação entre o corpo em movimento e o público, criando uma espécie de espelho do nosso tempo — uma cena onde o gesto circense funciona como semiótica do contemporâneo.
Benedetti e Zanoli, filhos de Bergamo na geografia e na história profissional, trazem ao palco um orgulho particular: o de se apresentar na cidade que os reconhece, após uma longa fase de afirmação. Esse reconhecimento do mundo teatral institucional também se nota na programação da Fundação Teatro Donizetti, que nos próximos meses receberá produções de peso — entre elas, a montagem de O’Neill com Gabriele Lavia (de 11 a 19 de abril) — e que, nas temporadas anteriores, já abriu espaço a experimentos como «Otello Circus» e «Titizé».
Ver Circo Zoé em Bergamo é observar o reframe de uma arte muitas vezes estigmatizada como mero entretenimento. É perceber como o corpo acrobático propõe um roteiro oculto da sociedade: deslocamentos, pertencimento, aprendizado e reinvenção. A trupe se apresenta em Itália como na China com a mesma língua — a do movimento — e isso é, talvez, o maior privilégio de um espetáculo que fala universalmente sem apagar as sutilezas locais.
Num tempo em que o espetáculo procura relevância além do estrito espetáculo, Deserance funciona como um eco cultural: questiona, emociona e convida à reflexão. O circo, aqui, não é apenas uma vitrine de habilidades; é uma lente para ler conflitos e traços do presente, um roteiro físico que nos chama a olhar além da superfície.






















