Por Chiara Lombardi — Como um plano de luz que recorta a escuridão de uma cena, U2 voltou a falar alto e com pressa. A banda irlandesa lançou, de surpresa, o EP Days of Ash, um pequeno mas densamente político conjunto de músicas que responde ao turbilhão global: da violência do ICE e do clima do trumpismo às tragédias em Gaza e na Ucrânia. Não se trata do novo álbum integral que os fãs aguardam — Bono chegou a dizer que há cerca de 25 canções prontas para o disco principal —, mas estes cinco temas (com uma poesia recitada) não podiam esperar.
O EP surge nove anos depois do último trabalho de inéditos e se apresenta como uma espécie de interlúdio urgente, um manifesto sonoro que retoma o DNA engajado dos U2: da observação dos troubles irlandeses ao compromisso com causas globais e pacifistas. É como se a banda, diante do cenário de transformação do nosso tempo, tivesse decidido subir ao palco para reescrever, em microfone e guitarra, o que considera inadiável.
“Essas músicas não podiam esperar. São canções de desafio e consternação, de lamento”, diz Bono, sublinhando que o tom e a narrativa desses temas diferem do que está sendo preparado para o álbum completo. A sequência de lançamentos recentes no rock que assinalam posições políticas — como a atitude de Springsteen com Streets of Minneapolis — ajuda a contextualizar este gesto dos U2 como parte de um reframe cultural: músicos tomando a dianteira no debate público.
Entre as vozes do grupo, há concordância sobre o imperativo moral do gesto. Larry Mullen Jr. lembra as colaborações históricas com organizações como Amnesty e Greenpeace: “Desde o começo não hesitamos em tomar posição”. Adam Clayton fala do timing: “Me parece que chegam no momento certo”. The Edge articula a visão política com clareza: acreditam em um mundo onde fronteiras não sejam impostas pela força, onde cultura, língua e memória não sejam silenciadas, e onde a dignidade de um povo não seja negociável — um terreno firme, não uma moda.
O disco abre com American Obituary, uma faixa de ritmo pulsante que culmina numa descarga elétrica e aborda o assassinato em Minneapolis, a morte — segundo reportes trazidos pelo lançamento — de Renée Nicole Macklin Good às mãos do ICE. Bono nomeia a vítima, a descreve como uma “mãe americana de três filhos” cruelmente rotulada de “terrorista” e conjura uma imagem cortante: “um projétil para cada filho”. Há raiva no relato, mas não entrega à desesperança: a letra crava uma crença na reação contra a ordem das mentiras, na força do amor frente ao ódio.
Em contraste, The Tears of Things é uma balada onde a guitarra acústica conduz uma narrativa que se expande como um plano-sequência sem começo nem fim. Referências bíblicas e artísticas — incluindo uma fala em primeira pessoa evocando o David de Michelangelo — misturam-se à história recente, com imagens sombrias que chegam até ecos do passado autoritário europeu. A presença da memória histórica funciona como lente: o EP não apenas comenta eventos contemporâneos, mas os insere numa continuidade simbólica que pede atenção.
Como observadora do zeitgeist, vejo Days of Ash como um espelho cultural que reflete um tempo em que a música volta a ser intervenção — não pela surpresa em si, mas pela escolha de se posicionar. Em tempos de fluxos virais e notícias que vaporizam empatia, o gesto dos U2 é uma insistência na narrativa: há coisas que não podem ser naturalizadas, e artistas têm o papel de apontar o roteiro oculto da sociedade. Este EP é pequeno em duração, mas pesado em intenção — um fragmento sonoro que atravessa fronteiras e exige escuta.
O grupo afirmou ainda que as canções do EP têm ânimos e narrativas distintos das faixas do futuro álbum, deixando claro que Days of Ash é uma resposta imediata aos acontecimentos e não o reflexo final do que virá em seu próximo trabalho completo.
Em suma, os U2 reaparecem como cronistas de um mundo em ebulição: com guitarras, palavras e imagens que lembram que a música pode ser, novamente, ato de posicionamento.






















