Por Aurora Bellini — A sombra de uma nova emergência ecológica estende-se pelo continente gelado: a aviária já não é problema apenas de criatórios ou de aves continentais — ela alcança a Antártica e põe em risco colônias inteiras de pinguins e outros moradores do gelo.
O alerta vem do pesquisador chileno Victor Neira, que conversou com a Espresso Italia sobre a presença contínua e crescente de uma variante particularmente agressiva do vírus naquele território extremo. Segundo Neira, que estuda a disseminação da influenza aviária na Antártica há uma década, a cepa observada tem capacidade de matar aves rapidamente — “em curtos períodos, pode eliminar 100% dos indivíduos expostos” — e, de forma ocasional, infectar mamíferos, como as otarias orsinas, já registradas entre os casos.
Os primeiros resultados positivos datam de abril de 2024, quando a equipe de Neira identificou o agente viral em stercorari (skuas), aves marinhas típicas das regiões polares. Esse achado foi publicado na revista Frontiers in Veterinary Science e, desde então, o patógeno continuou a avançar: em uma extensão que abrange cerca de 900 km da costa oeste antártica, novos casos têm sido confirmados em diversas espécies.
Durante a última expedição, pesquisadores verificaram sinais de infecção em cerca de dez espécies diferentes, incluindo cormoranos antárticos, gaivotas kelp, pinguins de Adélie e de Gentoo (Papua), além das já mencionadas otarias. Embora muitas dessas espécies constem atualmente como de risco “mínimo” segundo a União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN), Neira lembra que as populações antárticas são, globalmente, pequenas e localizadas: uma redução populacional pode pesar muito no quadro de conservação — por exemplo, algumas colônias de cormoranos e skuas são estimadas em apenas cerca de 20.000 indivíduos.
O avanço do vírus sobre o mosaico de colônias antárticas acende um conjunto de preocupações práticas e éticas: como proteger a biodiversidade sem isolar de vez os pesquisadores e equipes de apoio que acompanham esses ecossistemas? O primeiro passo, dizem os especialistas, é monitoramento intensificado, protocolos de biossegurança rigorosos em expedições, restrição temporária de acesso às colônias mais afetadas e aumento das coletas de amostras para mapear mutações e trajetórias de transmissão.
Vacinas e intervenções diretas em vida selvagem ainda são soluções complexas e de eficácia incerta para populações selvagens tão dispersas e sensíveis. Por isso, a resposta precisa combinar ciência de base — vigilância virológica, estudos sobre vias de transmissão e risco de salto entre espécies — com medidas de gestão que reduzam o risco de propagação humana e preservem o tecido ecológico local.
Enquanto a comunidade científica amplia os esforços, cabe a nós, curadores de informação e guardiões do legado natural, iluminar caminhos que privilegiem a prevenção e a solidariedade internacional. Proteger os pinguins e a fauna antártica é semear resiliência: cada registro, cada protocolo compartilhado e cada expedição cautelosa ajuda a tecer de novo um horizonte límpido para essas espécies.
Victor Neira e sua equipe seguem em campo, recolhendo dados e alertando para a rapidez com que esta variante age. A lição que emerge é clara e serena: a fragilidade de um canto remoto do planeta nos lembra da interdependência global. Iluminar esse problema é o primeiro passo para mitigá-lo — e, com ciência e cooperação, ainda há espaço para reverter danos e cultivar um renascimento na conservação polar.






















