Por Marco Severini — Em um movimento que revela as fragilidades do atual equilíbrio geopolítico, a última rodada de negociações entre Rússia e Ucrânia, mediada pelos Estados Unidos em Ginebra nos dias 17 e 18 de fevereiro, não produziu avanços substantivos sobre os temas centrais. O segundo dia de conversas foi notavelmente breve — duas horas, contra seis da sessão anterior — sinalizando um impasse mais do que cansaço das partes envolvidas.
O chefe da delegação russa, Vladimir Medinsky, descreveu o diálogo como “difícil” e evitou responder quase a totalidade das questões na curta coletiva de imprensa que concedeu, segundo reportagem do Moscow Times. A presença de Medinsky — conselheiro próximo de Vladimir Putin e figura já vista nas primeiras conversações de 2022 — foi lida por observadores como um indicativo de que Moscou não pretende adotar concessões substanciais neste momento.
As negociações, realizadas em formato bilateral e trilateral em diferentes mesas de trabalho no InterContinental Hotel, trataram de assuntos sensíveis: territórios, estruturas infraestruturais e a sorte do Donbass e da central nuclear de Zaporizhzhia. O presidente Zelensky reconheceu que as posições permanecem díspares e que não houve progressos expressivos, exceto em pontos de natureza estritamente militar.
Segundo Zelensky, os militares das partes discutiram mecanismos de monitoramento para um possível cessar-fogo e uma transição que leve à encerramento das hostilidades, desde que exista vontade política. Uma importância simbólica e prática foi atribuída à participação americana no monitoramento, algo que Kiev qualificou como “sinal construtivo”.
O chefe-negociador ucraniano, Rustem Umerov, também apontou para “progressos”, sem porém revelar pormenores. As conversas se basearam no plano norte-americano apresentado meses atrás, que contempla, em linhas gerais, concessões territoriais por parte da Ucrânia em troca de garantias de segurança ocidentais. Esse arcabouço continua a ser objeto de resistência no campo ucraniano e desconfiança por parte europeia.
No epicentro do impasse está o destino do Donbass, região industrial chave do leste ucraniano da qual cerca de 20% permanece sob controle de Kiev. Moscou insiste que as forças ucranianas se retirem das áreas que ainda controla na região de Donetsk — uma demanda que Zelensky, com o apoio da União Europeia, rejeita categoricamente.
Na mesa de Ginebra não estavam formalmente os países europeus, mas Alemanha, França, Reino Unido e Itália enviaram representantes para encontros marginais com as delegações ucraniana e americana. Para Kiev, a participação europeia é “indispensável” para viabilizar quaisquer acordos práticos e duradouros.
O presidente ucraniano acusou o Kremlin de procurar “prolongar” o processo negocial, pondo em dúvida a real disposição de Moscou para aceitar um cessar-fogo e negociar arreglos duradouros. Relatórios da imprensa internacional, como Axios, indicam que as negociações naufragaram sobretudo pelas posições rígidas defendidas por Medinsky.
Num tabuleiro de xadrez geopolítico, o encontro de Ginebra confirma que as peças foram mobilizadas, as intenções mapeadas, mas os movimentos decisivos ainda não se realizaram. A tectônica de poder permanece intacta: qualquer acordo exigirá não apenas concessões militares e territoriais, mas alicerces políticos e garantias internacionais que, até aqui, se mostram frágeis.






















