Por Marco Severini — A reunião inaugural do Board of Peace, iniciativa promovida pelo presidente norte-americano Donald Trump, representa um movimento estratégico com claras ambições de redesenho da governança de crise no Oriente Médio. Concebido como um organismo internacional para gerir resolução de conflitos, seu foco inicial recai sobre a guerra em Gaza e a implementação do plano de paz americano para a Faixa.
A estrutura, presidida pelo próprio Trump e dotada de amplos poderes — incluindo direito de veto e controle da agenda — pretende supervisionar iniciativas humanitárias e a reconstrução, com compromissos financeiros dos países-membros que somam mais de US$ 5 bilhões. Essa configuração de poderes concentra autoridade num único eixo, algo que tem despertado cautela entre diplomatas acostumados às instituições multilaterais tradicionais.
Após uma sessão fundadora realizada em Davos, a primeira reunião oficial ocorre em Washington e reunirá ao menos 35 chefes de Estado e de governo. A lista de participantes revela a intenção de construir um bloco variado, com presença de Estados do Médio Oriente, da Ásia Ocidental, da Ásia central e sudeste, além de representantes da Europa oriental e da América Latina.
Entre os países envolvidos constam Israel, Argentina, Arábia Saudita e Egito, bem como nações da região como Armênia, Azerbaijão, Bahrein, Jordânia, Kuwait, Qatar, Turquia, Emirados Árabes Unidos e Paquistão. Do continente asiático participam Cazaquistão, Uzbequistão, Mongólia, Camboja, Indonésia e Vietnã; da Europa, Albânia, Bielorrússia, Bulgária, Hungria e Kosovo; e da América Latina, Argentina, El Salvador e Paraguai. Norte da África terá representação de Egito e Marrocos.
Figuras políticas de relevo confirmam presença: o secretário-geral do Partido Comunista do Vietnã, To Lam; o primeiro-ministro cambojano Hun Manet; e o presidente indonésio Prabowo Subianto. O presidente argentino Javier Milei está previsto em Washington, e Israel será representado pelo ministro das Relações Exteriores, Gideon Sa’ar, após a adesão assinada pelo primeiro-ministro Benjamin Netanyahu.
Outros Estados optaram por uma participação limitada. Itália, México, República Tcheca e Bulgária participarão como observadores sem direito a voto; o Japão recebeu convite e avalia o nível de representação. Notavelmente, grandes potências e a maioria dos países europeus, entre eles França, Alemanha, Espanha e Suécia, declinaram o convite, citando preocupações de que o novo mecanismo possa minar o papel das Nações Unidas e dos processos multilaterais de paz.
Em termos de estratégia internacional, a criação do Board of Peace insere-se numa lógica de tectônica de poder: construir um alicerce alternativo à arquitetura diplomática existente, com vetos e agenda controlada a partir de Washington. O objetivo declarado é supervisionar a aplicação do plano americano de 20 pontos para Gaza e, no médio prazo, estender o modelo a outros conflitos.
Para analistas que privilegiam a continuidade institucional, há motivos de preocupação. A composição majoritariamente favorável ao círculo político de Trump e a concentração de poderes executivos no novo organismo podem representar um movimento decisivo no tabuleiro diplomático global — uma peça que altera alianças, influencia prioridades de ajuda e reconfigura vias de legitimação internacional fora dos trilhos tradicionais.
Ao mesmo tempo, a iniciativa tem potencial para mobilizar recursos rápidos para emergência humanitária e reconstrução, resposta que frequentemente esbarra na morosidade dos mecanismos multilaterais. Resta observar se o Board of Peace atuará como complemento prático às Nações Unidas ou como uma estrutura paralela capaz de redesenhar fronteiras invisíveis da influência global.
Em suma, Washington abre hoje um novo capítulo de diplomacia pragmática e competição institucional. O desfecho dependerá tanto da eficácia operacional no terreno quanto da capacidade de legitimização política frente aos atores multilaterais tradicionais. Este é um movimento de xadrez com consequências potenciais de longa duração — e as próximas jogadas definirão se o tabuleiro será de cooperação reforçada ou de fragmentação diplomática.






















