ONU e diplomatas internacionais soaram um alerta sobre um movimento que, na geopolítica do Oriente Médio, tem o caráter de um avanço metódico: a transformação gradual do controle territorial na Cisjordânia em uma anexação de facto. A advertência foi feita pelo Subsecretário-Geral das Nações Unidas, Rosemary DiCarlo, durante sessão do Conselho de Segurança dedicada à questão palestina.
Nas últimas semanas, o governo de Israel aprovou um conjunto de medidas, fortemente promovidas por ministros da extrema-direita, com o objetivo declarado de consolidar o controle sobre áreas hoje administradas pela Autoridade Nacional Palestina. Segundo a avaliação da ONU, essas iniciativas — se implementadas — representam uma expansão perigosa da autoridade civil israelense na Cisjordânia ocupada, incluindo locais sensíveis como Hebron.
Entre as ações que preocupam a comunidade internacional estão disposições que podem facilitar a expansão dos assentamentos, reduzir entraves burocráticos e agilizar compras de terras e concessões de autorizações de construção. Na prática, descreve a diplomacia das Nações Unidas, trata-se de um redesenho incremental do território, movimento que altera o panorama de governança sem declaração formal de soberania — é, em termos estratégicos, um movimento no tabuleiro que muda as regras do jogo.
O pano de fundo legal e político remete aos Acordos de Oslo, assinados nos anos 1990, que dividiram a Cisjordânia em áreas A, B e C, com graus distintos de autoridade para a liderança palestina e para Israel. A porção mais extensa dessa região constituiria a base territorial de um futuro Estado palestino, objetivo que Oslo buscava viabilizar. No entanto, facções da direita religiosa em Israel consideram essas terras parte integrante da pátria judaica, visão que agora se traduz em políticas de fato sobre o terreno.
Uma missão da ONU representando 85 Estados emitiu declaração conjunta condenando o avanço unilateral de Israel na Cisjordânia. ‘Condenamos firmemente as decisões e medidas unilaterais israelenses destinadas a expandir a presença ilegal de Israel na Cisjordânia’, diz o documento, que pede a reversão das medidas.
Em contrapartida, o ministro das Relações Exteriores israelense, Gideon Sa’ar, rebateu as críticas, argumentando que a presença judaica na região é um direito histórico e documentado. A resposta de Tel Aviv ilustra a tensão entre narrativas históricas de posse e o quadro do direito internacional.
No Conselho de Segurança, países como França reafirmaram o compromisso com a solução de ‘dois Estados’ e pediram a revogação das decisões que ampliam o controle israelense. O vice-embaixador francês alertou para a gravidade inédita da situação, que mina perspectivas de paz e estabilidade.
Como analista, vejo esse processo como uma manobra de tectônica de poder: camadas administrativas e legais movem-se silenciosamente, alterando fronteiras invisíveis e fragilizando os alicerces da diplomacia tradicional. Em termos de estratégia, é um lance no tabuleiro que busca consolidar ganhos territoriais sem confrontar abertamente a arquitetura jurídica internacional — uma estratégia de avanço por descontinuidade burocrática que exige resposta calibrada da comunidade global para evitar um redesenho permanente do equilíbrio regional.






















