Com o rito da Quarta‑feira de Cinzas inicia‑se na Igreja a Quaresma, os quarenta dias de preparação espiritual rumo à Páscoa. É um dos momentos mais intensos do calendário litúrgico cristão: tempo de conversão, oração e penitência, quando o sacerdote abençoa e impõe sobre a fronte dos fiéis o sinal da cruz com as cinzas, lembrando as palavras bíblicas “Pó és e ao pó voltarás”.
O Papa Leone XIV presidiu pela primeira vez a liturgia da “Statio” na igreja de Sant’Anselmo, um gesto breve, porém repleto de sentido simbólico. Em seguida, celebrou a missa na Basílica de Santa Sabina, no Aventino, em clima solene e de recolhimento. Durante a celebração recebeu a imposição das cinzas das mãos do Cardeal Angelo De Donatis.
Na homilia, o Papa Leone vestiu os paramentos de cor violeta, característicos do tempo quaresmal, e estava acompanhado por cardeais, arcebispos, bispos e pelos monges beneditinos de Sant’Anselmo. “Hoje, Quarta‑feira de Cinzas, peçamos ao Senhor que nos ajude a acolher com o coração aberto as graças que Ele quer nos dar neste tempo de Quaresma, para que produzam frutos abundantes de salvação para nós e para os irmãos”, afirmou o Pontífice.
Desde o alto do Aventino, Leone XIV exortou os fiéis a redescobrir, com sempre nova alegria, a graça de pertencer à Igreja — uma comunidade convocada para ouvir a Palavra de Deus. A Quaresma, disse ele, é um tempo forte de comunidade: “Sabemos como é cada vez mais difícil reunir as pessoas e sentir‑se povo, não de forma nacionalista ou agressiva, mas numa comunhão em que cada um encontra o seu lugar”.
O Santo Padre ressaltou a necessidade de uma oração constante e de uma conversão sincera: convidou os presentes a abrir o coração para acolher os domínios oferecidos por Deus neste período de preparação para a Páscoa. Leone foi além do gesto ritual e propôs um desafio profundo: “É um caminho que exige contracorrente, mas que, quando se declara impotente diante de um mundo que arde, torna‑se uma alternativa honesta e atraente. Sim, a Igreja existe também como profecia: uma comunidade que reconhece os próprios pecados”.
O Papa advertiu que o pecado é sempre pessoal, mas ganha forma nos ambientes reais e virtuais que frequentamos, nas atitudes que mutuamente nos condicionam, e por vezes integra verdadeiras estruturas de pecado — econômicas, culturais, políticas e também religiosas. A Escritura, explicou Leone, nos ensina a opor à idolatria o Deus vivo: “Significa ousar a liberdade e reencontrá‑la através de um êxodo, de um caminho. Não mais paralisados, nem rígidos, seguros nas próprias posições, mas reunidos para mover‑nos e mudar. Quão raro é encontrar adultos que se arrependem, pessoas, empresas e instituições que admitem o erro!”.
Na solenidade da imposição das cinzas, o gesto exterior aponta para uma transformação interior: é convite a iluminar novos caminhos, semear mudança e cultivar valores que projetem um horizonte límpido para a vida comum. Como curadora de histórias e diálogo público, vejo nesse momento a promessa de um renascimento cultural — uma oportunidade para tecer laços sociais e regenerar a ação coletiva a partir do silêncio e do reconhecimento.
Que estas semanas de Quaresma sejam, para os fiéis e para todos nós, um tempo de conversão verdadeira: não apenas palavras, mas gestos concretos que transformem o coração e a vida comunitária, revelando novas paisagens de humanidade iluminada.






















