“Senhoras e senhores, bem-vindos ao Cassino de Sanremo para uma noite extraordinária organizada pela Rai, uma noite da canção com a orquestra de Cinico Angelini.” Foi com essa aparição quase cinematográfica, em 29 de janeiro de 1951, que se inaugurou o primeiro Festival de Sanremo, apresentado por Nunzio Filogamo. Três cantores disputavam, vinte canções haviam sido selecionadas e as rádios de toda a Itália aguardavam para decretar o veredito do público — o início de um roteiro que viraria espelho cultural do país.
Na noite inaugural, venceu Nilla Pizzi com “Grazie dei fiori”, um clássico que rapidamente se enraizou na memória coletiva. No ano seguinte, diante de uma avalanche de 380 inscrições, Pizzi voltou a triunfar com “Vola colomba”. Mas foi em 1953 que nasceu a primeira rivalidade palpável do Festival: Carla Boni — a chamada “cantante do grito” —, junto a Flo Sandon, conquistou o público com “Viale d’autunno” e tirou a vitória de Pizzi.
O Festival só chegaria à televisão em 1955. Nos primeiros anos em que a audiência migrou do rádio para a tela, a transmissão impôs suas regras e horários: as primeiras noites iam ao ar somente a partir das 22h45, após o fim do varietà “Un, due, tre”, e as performances eram cantadas em playback. Em 1958, o Festival rompeu fronteiras quando Domenico Modugno, em dupla com Johnny Dorelli, levou o público ao êxtase com “Nel blu dipinto di blu” — a canção que, como um frame perfeito, circulou pelo mundo e transformou o sucesso nacional em fenômeno internacional.
O Festival também foi palco de mudanças estilísticas e de chegada de novas figuras: nos anos 60, entre melodias tradicionais e vozes potentes, irrompeu o rock de Adriano Celentano com “24mila baci” — ele não venceu, mas deixou sua marca. Surgem os cantautores que redefiniriam a canção italiana: Gino Paoli, Giorgio Gaber, Umberto Bindi e outros. Em 1964, a jovem Gigliola Cinquetti, aos 16 anos, venceu com “Non ho l’età”, que também conquistou o Eurovision, consolidando Sanremo como plataforma europeia.
Nem todos os capítulos do festival são feitos apenas de aplausos: 1967 entrou para a história pela tragédia de Luigi Tenco, cuja morte, ocorrida após a eliminação do Festival, ecoou como um dos episódios mais sombrios e discutidos da trajetória do evento. Já em 1968 se iniciam as 13 edições apresentadas por Pippo Baudo, figura que se tornaria sinônimo do próprio Festival.
Aqui, um recorte com os primeiros vencedores que moldaram a tradição (anos iniciais):
- 1951 — Nilla Pizzi – “Grazie dei fiori”
- 1952 — Nilla Pizzi – “Vola colomba”
- 1953 — Carla Boni & Flo Sandon – “Viale d’autunno”
- 1954 — Giorgio Consolini & Gino Latilla – “Tutte le mamme”
- 1955 — Claudio Villa & Tullio Pane – “Buongiorno tristezza”
- 1956 — Franca Raimondi – “Aprite le finestre”
- 1957 — Claudio Villa & Nunzio Gallo – “Corde della mia chitarra”
- 1958 — Domenico Modugno & Johnny Dorelli – “Nel blu dipinto di blu”
- 1959 — Domenico Modugno & Johnny Dorelli – “Piove (Ciao ciao bambina)”
- 1960 — Tony Dallara & Renato Rascel – “Romantica”
- 1961 — Betty Curtis & Luciano Tajoli – “Al di là”
- 1962 — Domenico Modugno & Claudio Villa – “Addio… addio”
- 1963 — Tony Renis & Emilio Pericoli – “Uno per tutte”
- 1964 — Gigliola Cinquetti & Patricia Carli – “Non ho l’età (Per amarti)”
Sanremo é muito mais do que uma lista de vencedores: é um arquivo de afetos, escolhas estéticas e rupturas que refletem o roteiro oculto da sociedade italiana. De Nilla Pizzi a nomes contemporâneos como Olly, cada vencedor acrescenta uma cena ao filme coletivo da música italiana — e assistir ao festival é, em certa medida, olhar o país por meio de sua trilha sonora.
Como analista cultural, convido você a ver além do pódio: busque na letra, na performance e na recepção do público o que cada vitória revela sobre a Itália de sua época. O Festival de Sanremo continua a ser esse espelho multifacetado — às vezes nostálgico, às vezes provocador — mas sempre essencial para entender o zeitgeist musical e social.






















