Arianna Fontana entrou para a história do esporte italiano ao conquistar, com a prata na estafeta de short track 3.000 metros em Milão-Cortina 2026, a 14ª medalha olímpica de sua carreira. O feito a coloca à frente de um dos nomes mais simbólicos do esporte nacional, o esgrimista Edoardo Mangiarotti, consolidando-a como a atleta mais premiada da história olímpica da Itália.
O caminho que levou Fontana a esse marco é ao mesmo tempo uma narrativa de longevidade esportiva e de transformação do próprio panorama do gelo. Com três ouros, seis pratas e cinco bronzes em seis edições dos Jogos — de Torino 2006 a Milão-Cortina 2026 —, sua trajetória atravessa duas décadas de evolução técnica e competitiva no short track, disciplina que ganhou visibilidade crescente e capacidade de criar ícones nacionais.
Há simbolismo adicional no fato de a medalha que garantiu o recorde ter vindo exatamente na prova que a revelou ao grande público: a estafeta 3.000 metros, onde, vinte anos antes, conquistara seu primeiro pódio olímpico, um bronze em Torino 2006. Esse retorno ao ponto de partida carrega significado: não se trata apenas de acumular medalhas, mas de sustentar um nível de excelência ao longo de várias gerações de competidoras e avanços técnicos.
O comparativo com Edoardo Mangiarotti — que colecionou seis ouros, cinco pratas e dois bronzes entre 1936 e 1960, em cinco edições olímpicas — ajuda a medir o alcance histórico do feito. Mangiarotti, além dos resultados olímpicos, somou 26 medalhas em campeonatos mundiais, metade delas de ouro, e ocupa um lugar quase mítico na memória esportiva italiana. Superá-lo não diminui sua grandeza; revela, antes, como o esporte evolui em possibilidades de carreira, visibilidade e profissionalização, permitindo a atletas como Fontana estenderem sua relevância por mais tempo.
Do ponto de vista social e cultural, a ascensão de Arianna Fontana reforça algumas tendências: a crescente centralidade das mulheres na produção de heroísmos esportivos italianos, a capacidade das modalidades ‘menores’ em termos de público, como o short track, de gerar narrativas nacionais e a importância das políticas de formação e apoio ao longo prazo. Em contextos onde infraestrutura, patrocínio e atenção da mídia variam muito, manter-se relevante por seis edições olímpicas exige não apenas talento, mas resistência institucional e pessoal.
Enquanto celebramos o marco numérico — 14 medalhas —, é útil também perceber o que ele nos conta sobre o esporte italiano contemporâneo: a multiplicidade de caminhos para a glória, a interseção entre história e modernidade e a forma como atletas se tornam agentes de identidade coletiva. Arianna Fontana torna-se, portanto, uma referência não só por seus pódios, mas pela história que traduz: de uma jovem que desembarcou no gelo olímpico em 2006 a um símbolo de persistência em 2026.
Por Otávio Marchesini, repórter de Esportes — Espresso Italia






















