Por Alessandro Vittorio Romano — A boa notícia abre espaço como uma brisa depois de uma longa noite: em Itália, a mortalidade por câncer de mama, a neoplasia mais frequente entre as mulheres, diminuiu cerca de 6% nos últimos cinco anos. Esse recuo, fruto da difusão dos programas de diagnóstico precoce e dos contínuos avanços terapêuticos, é também o pano de fundo da 23ª edição do encontro nacional Focus sul carcinoma mammario, que se inicia amanhã, 19 de fevereiro, em Udine.
A edição 2026 traz uma novidade de peso: na segunda jornada do congresso acontecerá a primeira Consensus Conference nacional dedicada ao câncer de mama, um momento destinado a alinhar práticas e recomendações entre especialistas de diferentes áreas. Afinal, a cura e a qualidade de vida nascem, cada vez mais, das interseções entre saberes.
“Todos os anos, na Itália, são diagnosticados mais de 53 mil novos casos de câncer de mama, cerca de 1.300 dos quais no Friuli Venezia Giulia”, explica o professor Fabio Puglisi, titular de Oncologia Médica na Universidade de Udine e diretor do Departamento de Oncologia Médica do IRCCS CRO de Aviano. “Os progressos recentes são encorajadores: a sobrevida a 5 anos ultrapassa os 88% no país e mantém níveis semelhantes na nossa região”.
Os dados mostram ainda que, quando a doença é identificada em fases iniciais, a sobrevida a cinco anos supera 95%. «São números que refletem a eficácia de percursos de cuidado cada vez mais integrados. Por isso é essencial fortalecer a colaboração entre os vários especialistas que acompanham a paciente», acrescenta Puglisi. É como cuidar de um pomar: não basta podar; é preciso água, fertilidade e tempo para que as árvores deem fruto.
Entre as inovações apresentadas no congresso, a professora Lucia Del Mastro, diretora da Clínica de Oncologia Médica do IRCCS Ospedale Policlinico San Martino e da Universidade de Gênova, destaca o papel consolidado dos inibidores Cdk4/6 em associação à terapia endócrina nos tumores em fase precoce. Esses medicamentos reduziram significativamente o risco de recidiva e trouxeram benefício em termos de sobrevida. Paralelamente, observa-se um refinamento crescente na identificação dos casos em que é possível evitar a quimioterapia após a cirurgia — um ganho de delicadeza terapêutica que traduz melhor qualidade de vida para muitas mulheres.
Os testes genômicos já fazem parte da prática clinica diária e ajudam a definir quem efetivamente precisa de tratamentos mais agressivos. Del Mastro chama atenção também para a gestão dos sintomas ligados à privação estrogênica — como as ondas de calor e a secura vaginal — que afetam a adesão às terapias e, sobretudo, a rotina íntima das pacientes.
No cenário metastático, Puglisi sublinha o aumento do uso dos conjugados fármaco-anticorpo (ADC), que ampliam as opções para prolongar a qualidade e a duração da vida, como se fossem novas rotas que desenham possibilidades onde antes havia apenas escassez.
Ao final, o encontro em Udine não é apenas uma conferência de dados e fármacos; é uma convocação para ouvir o tempo interno do corpo e redesenhar cuidados. A queda da mortalidade é sinal de uma colheita de hábitos e investimentos que começaram anos atrás — e que pedem continuidade, coordenação e sensibilidade para transformar ciência em presença humana.






















