Por Otávio Marchesini, Espresso Italia
Aos 27 anos, Giulia Murada aproxima-se do que pode ser o ápice de uma carreira construída entre cumes e subidas: a estreia do esqui-alpinismo nos Jogos Olímpicos, representando a Itália em Milano Cortina 2026. Ela competirá na prova de sprint feminina nesta quinta-feira, em Bormio, e traz consigo um relato que combina disciplina, herança familiar e um entendimento preciso do que uma prova curta e intensa exige.
Ao fim de um treino matinal, com a paisagem austera do Stelvio como pano de fundo, Giulia resume suas rotinas de preparação mental: “Estou realmente emocionada. Tenho orgulho de estar aqui representando um esporte que amo e que merece espaço. Espero que agrade ao público e que muitos se apaixonem”. A atleta conta que, para administrar a tensão entre as baterias e as semifinais — intervalos que podem chegar a três horas — recorre a soluções simples e domésticas: palavras-cruzadas e sudoku. São práticas modestas, mas úteis para desbloquear a ansiedade e manter a concentração na hora certa.
Há, porém, outro elemento fundamental na trajetória de Giulia: a dimensão familiar. Ela é uma verdadeira filha de arte. Seu pai, Ivan Murada, foi figura central no desenvolvimento do esqui-alpinismo na Itália e integrou a equipe que conquistou o título mundial por equipes em 2002, ao lado de Graziano Boscacci. Hoje, Ivan também é seu treinador e a relação entre ambos, segundo Giulia, se pauta pela transparência e pelo diálogo — até por eventuais discussões que, dentro desse formato, são vistas como parte do processo.
Natural de Albosaggia, uma comunidade pequena no Vale de Sondrio, Giulia não negou a ambição: “Vim da pátria do esqui-alpinismo; há muitos praticantes e quero fazer uma boa figura. Não vim aqui só para participar. Minha temporada foi muito positiva e quero manter as portas abertas para sonhar”. Em sua carreira constam diversos pódios na Copa do Mundo, o que a credencia não apenas como participante, mas como candidata a um resultado de destaque.
O formato olímpico da sprint exige uma leitura clara: prova curta, ritmo altíssimo e margem mínima para cálculo tático. “Numa final de dois minutos há pouco a gerir: é preciso partir forte. Todos vão dar o máximo e as mudanças de ritmo e as transições vão ser decisivas. Uma distração na troca ou uma pequena falha na descida podem fazer a diferença”. Foi exatamente nesse detalhe — a transição e a descida — que Ivan trabalhou com atenção nas últimas semanas.
Como analista que observa o esporte no seu entrelaçamento com memória e identidade, vejo em Giulia Murada um símbolo dessa nova fase do esqui-alpinismo: um movimento que, saindo dos cantos alpinos, encontra na vitrine olímpica a possibilidade de se afirmar culturalmente. Não se trata só de equipar atletas; trata-se de legitimar práticas, formar espectadores e reconfigurar territórios que, como Albosaggia e Bormio, respiram essas tradições.
Na véspera da prova, Giulia confirma a confiança total no trabalho conjunto com o pai-treinador: “É assim desde sempre e acho perfeito. Há muito diálogo, às vezes discutimos e até brigamos, quando necessário. Sei que ele se importa; confio 100% nos seus conselhos”. Amanhã, no dia decisivo, essa confiança — aliada à técnica, ao preparo físico e à calma aplicada entre palavras-cruzadas — poderá converter-se na busca por uma medalha que tem significado além do metal: é um reconhecimento histórico para um esporte que estreia no palco maior do esporte mundial.
Para quem acompanha, resta observar atentamente não apenas o resultado, mas o que representa: a emergência de um esporte de montanha no mapa olímpico e a confirmação de um caminho em que famílias, comunidades e memória coletiva se entrelaçam numa corrida de poucos minutos, mas de impacto duradouro.






















