Por Alessandro Vittorio Romano — Nosso corpo tem pequenas alarmes naturais; entre eles, o sentido do olfato pode funcionar como uma verdadeira sentinela. Um estudo recente da Universidade de Michigan, publicado em JAMA Otolaryngology, mostra que a perda total do cheiro — a anosmia — em adultos acima dos 70 anos está associada a um aumento significativo do risco cardiovascular, incluindo AVC (ictus) e doenças coronarianas como angina e isquemia.
A pesquisa acompanhou por nove anos uma amostra de 5.142 adultos e encontrou que os participantes com anosmia tinham o dobro do risco de eventos cardiovasculares em comparação com aqueles que mantinham um olfato normal. A correlação se mostrou particularmente intensa nos primeiros quatro anos após o teste do olfato.
Até agora, alterações no olfato eram sobretudo relacionadas a doenças neurodegenerativas, nas quais a neuroinflamação costuma desempenhar papel central. A conexão agora identificada com complicações cardíacas sugere que um processo inflamatório sistêmico sobre a respiração do corpo — das artérias cerebrais ao tecido olfatório — pode ser o elo comum.
“O vínculo entre o olfato e as patologias cardiovasculares, sobretudo com o AVC, representa uma descoberta de relevo”, afirma Arianna Di Stadio, neuro-otorinolaringologista, professora de Otorrinolaringologia na Universidade LINK de Roma e pesquisadora na UCL Queen Square Neurology, em Londres. “Fomos ensinados a relacionar o olfato apenas às doenças neurodegenerativas. Hoje compreendemos que a perda sensorial pode refletir um estado de inflamação sistêmica que atinge também os vasos cerebrais e cardíacos.”
Os autores do estudo levantam hipóteses: a anosmia pode indicar mudanças estruturais nos vasos cerebrais ou resultar da degeneração do epitélio nasal provocada por processos inflamatórios. Se for assim, o sentido do olfato estaria captando, de forma discreta, o “tempo interno” do corpo — um calendário invisível de riscos que ainda não se manifestaram em sintomas clássicos.
A boa notícia é prática: o teste do olfato é rápido e barato. Como observa Di Stadio, sua aplicação em consultórios de atenção primária poderia identificar precocemente pacientes em que a neuroinflamação já age silenciosamente, permitindo vigilância e intervenções para prevenir eventos graves como o AVC.
Além do diagnóstico precoce, a pesquisa reforça que a “degeneração” dos sentidos e do cérebro não é uma sentença somente da idade: hábitos moldam a paisagem interna. Uma alimentação equilibrada, atividade física ao ar livre e, quando indicado, suplementação preventiva com substâncias fisiológicas com ação anti-neuroinflamatória — algumas já testadas em estudos sobre a COVID — podem ser ferramentas valiosas. Proteger o olfato, portanto, é também proteger o coração e preservar a funcionalidade cerebral.
Como um jardineiro que lê sinais na cor das folhas antes de a árvore adoecer, a medicina contemporânea aprende a ouvir pequenos presságios. O olfato, esse mensageiro íntimo, convida-nos a cuidar do terreno inteiro: do ar que respiramos às escolhas diárias que regam a saúde. Ficar atento a uma perda de cheiro nos mais velhos pode ser o gesto simples que evita tempestades maiores no futuro.






















