O Rei Frederico X da Dinamarca desembarcou na Groenlândia para uma visita oficial de três dias, gesto de proximidade e solidariedade com o território autônomo que tem sido alvo de aberturas e pressões geopolíticas vindas de Washington. A viagem é ao mesmo tempo um ato de representação e uma mensagem estratégica: reafirmar a ligação entre a metrópole e a ilha num momento em que o Ártico assume papel central na tectônica das grandes potências.
Na prática, a Casa Branca amenizou as declarações públicas sobre a possibilidade de apoderar-se da ilha por meios coercitivos, mas a primeira-ministra dinamarquesa, Mette Frederiksen, advertiu, durante a Conferência de Segurança de Munique, que não se pode descartar que o presidente Donald Trump tenha mudado de ideia. A ambiguidade, mais do que a retórica, é o que sustenta inquietação em Copenhague e em Nuuk.
A visita, anunciada no fim de janeiro, teve origem num apelo explícito do monarca — então com 57 anos — de solidariedade aos aproximadamente 57.000 habitantes da ilha. O itinerário do coroado é claro e simbólico: hoje, a capital Nuuk; amanhã, Maniitsoq, a cerca de 150 km ao norte; e, por fim, Kangerlussuaq, onde se localiza um centro de treino ártico das forças dinamarquesas. Cada parada é um ponto num mapa de influência, onde diplomacia e presença militar convivem como dois aspectos do mesmo tabuleiro.
O motivo central das atenções externas é conhecido: a Groenlândia reúne importantes reservas de recursos minerais e, com o derretimento progressivo do gelo, emergem novas rotas marítimas e oportunidades estratégicas. Na linguagem da Realpolitik, o que está em jogo é a capacidade de definir corredores de acesso e de influência no Ártico, num cenário de competição crescente entre Rússia, China e Estados Unidos.
Em resposta a essa dinâmica, foi criado recentemente um grupo de trabalho conjunto entre Estados Unidos, Dinamarca e Groenlândia para debater questões de segurança no Ártico — detalhes operacionais não foram tornados públicos. A existência desse fórum tripartite revela uma tentativa de institucionalizar canais de diálogo, em vez de permitir que decisões unilaterais redesenhem fronteiras invisíveis no alto norte.
Como analista e observador de tabuleiros estratégicos, vejo na presença do Rei uma jogada de dupla finalidade: afiançar laços internos, tranquilizando uma população pequena porém com identidade política própria, e projetar uma posição clara no xadrez internacional do Ártico. A visita reforça os alicerces da diplomacia dinamarquesa em torno da ilha e sinaliza a outros atores que a interação com Nuuk deve passar por vias formais e negociadas, não por impulsos de compra ou apropriação.
Por fim, a viagem ilustra como o Ártico deixou de ser apenas um pano de fundo climático para tornar-se um palco central da estratégia global. Entre rotas que se abrem e interesses que se aquecem, a Groenlândia permanece um nó crítico: pequeno em população, mas grande em significado geopolítico — um movimento decisivo no tabuleiro onde se redesenham as linhas de influência do século XXI.






















