Por Otávio Marchesini, Espresso Italia — A decisão de trocar de bandeira, para um atleta, é sempre um gesto que ultrapassa o esporte: contém escolhas de identidade, oportunidades e, muitas vezes, uma leitura das estruturas que regem as carreiras. Recentemente, depois de nomes como Lucas Braathen e Laura Colturi, Pietro Tranchina optou por trilhar esse caminho. Nascido no Piemonte, Tranchina encontrou no Marrocos — país de nascimento de sua mãe — uma nova afiliação esportiva e, com isso, uma nova casa simbólica.
O processo foi formalizado com o cambio de licenza, medida que lhe permitiu representar oficialmente o Marrocos nas competições internacionais. O gesto teve repercussão imediata: Tranchina se apresentou na Cerimônia de Abertura dos Giochi Olimpici de inverno e, pouco depois, alinhou-se nos cancelos de partida do Circo Branco, tornando-se o primeiro atleta a competir com a camisa marroquina em uma Olimpíada de sci alpino no traçado da Stelvio, em Bormio.
Do ponto de vista histórico, o episódio merece atenção. O esporte de alto rendimento vive hoje sob regras que permitem essas transições quando há vínculos familiares ou residenciais, e quando as federações e instâncias olímpicas autorizam o processo. Para países sem tradição nas modalidades de inverno, como o Marrocos, a chegada de um competidor com formação europeia traz visibilidade imediata e abre perguntas sobre desenvolvimento estrutural, investimento e formação local — além de lançar ao público uma nova narrativa identitária.
Tranchina não abandonou suas raízes italianas; ao contrário, carregou-as consigo ao escolher representar o país de origem materna. O gesto revela algo recorrente no esporte contemporâneo: a negociação entre oportunidades competitivas e identitárias. Para atletas com trajetória nos clubes e pistas europeias, optar por outra bandeira pode significar acesso a vagas olímpicas, calendário internacional e maior protagonismo num contexto em que, caso contrário, permaneceriam à margem em seleções tradicionais e altamente competitivas.
Especificamente em Bormio, o significado simbólico é potente. A pista da Stelvio é um dos percursos mais exigentes e icónicos do esqui alpino — um cenário que confere solenidade ao feito de Tranchina. Não se trata apenas de uma estreia formal; é um gesto de representação num palco que resume décadas de história do esqui europeu.
Resta observar como o caso será percebido em Marrocos e na diáspora marroquina na Europa: haverá apropriação pública dessa trajetória? Surgirão iniciativas para fomentar a prática invernal no país norte-africano? São perguntas que ultrapassam o cronômetro de chegada e remetem às decisões institucionais que podem transformar um ato individual em projeto coletivo.
Como analista que vê no esporte um espelho social, acompanho esse movimento com atenção. A troca de licença de Pietro Tranchina é mais do que uma mudança de uniforme: é um ponto de interseção entre memória familiar, estratégia esportiva e potencial de construção institucional. No xadrez das federações e das políticas esportivas, pequenos gestos podem alterar trajetórias — e, eventualmente, expandir o mapa do que se entende por tradição em modalidades que foram, durante muito tempo, quase exclusivas de algumas regiões da Europa.
Em Bormio, sob os holofotes da Stelvio, ficou registrada a imagem de um atleta que escolheu reinventar sua representação. Resta ao tempo dizer como essa escolha será traduzida em legado — para ele, para o Marrocos e para a história do esqui.






















