Genebra voltou a ser, nesta quarta-feira, o centro diplomático de um conflito que persiste como um desafio estratégico ao longo de quatro anos: recomeçaram os colóquios trilaterais e bilaterais entre delegações da Ucrânia e da Rússia, com mediação dos Estados Unidos, ao mesmo tempo em que continuaram os ataques russos no terreno.
Segundo o chefe da delegação ucraniana, Rustem Umerov, as conversações prosseguem em grupos de trabalho organizados por áreas prioritárias, divididas entre percursos políticos e militares. A agenda, conforme vem sendo descrita, privilegia questões práticas e mecanismos de implementação — etapas clássicas de um processo que busca transformar movimentos táticos em acordos estratégicos.
Na madrugada anterior, as forças russas lançaram um míssil balístico e 126 veículos aéreos não tripulados; as defesas ucranianas declaram ter interceptado 100 desses drones. Ainda assim, os ataques resultaram em vítimas civis: o serviço de emergência ucraniano informou duas mortes e sete feridos em Zaporizhia — entre os mortos, uma mulher de 48 anos — e a administração militar regional de Dnipropetrovsk confirmou um óbito em sua jurisdição. Foram relatados danos em um prédio residencial de vários pavimentos, em um dormitório e em mais de 30 casas particulares.
O presidente Zelenskyy condenou publicamente as ações, salientando, em mensagem em vídeo, que os bombardeios demonstram o real propósito de Moscou mesmo no dia em que se iniciaram conversações multilaterais em Genebra. Exigiu que os aliados — em especial os mediadores — levantem a questão dos ataques e ressaltou que a Ucrânia está pronta a avançar rapidamente para um acordo digno que ponha fim ao conflito, sem, contudo, aceitar imposições que comprometam a soberania do país.
As sessões de ontem duraram seis horas e foram caracterizadas por uma elevada tensão, segundo fontes próximas à delegação russa. As reuniões ocorreram a portas fechadas no InterContinental Hotel, com a presença de conselheiros de Alemanha, França, Reino Unido e Itália. Após a plenária inicial, os trabalhos migraram para blocos setoriais, buscando desconstruir o problema em elementos tangíveis e passíveis de negociação.
Do lado americano, o enviado da Casa Branca, Steve Witkoff, saudou os “significativos progressos” registrados no processo, realçando a importância de converter conversas em mecanismos verificáveis de redução de hostilidades. Em Kiev, as autoridades também anunciaram a imposição de sanções contra o presidente bielorrusso Alexander Lukashenko, no quadro da pressão para isolar atores que facilitem a logística e o apoio político a Moscou.
Como analista, observo que este é um movimento decisivo no tabuleiro: as negociações em Genebra funcionam como um espaço onde se tenta redesenhar, de forma tangível, a tectônica de poder na região. Porém, os alicerces da diplomacia permanecem frágeis enquanto as sirenes soarem e os projéteis continuarem a atingir civis. A capacidade de transformar avanços verbais em mutáveis reais dependerá não apenas da boa-fé das partes, mas também de garantias externas, mecanismos de verificação e da disposição internacional de aplicar custos políticos e econômicos — movimentos clássicos de Realpolitik num tabuleiro onde cada peça é pesada.
Em suma, Genebra é hoje palco de uma tentativa de converter um impasse militar em um caminho político; contudo, o barulho dos ataques recorda que, até que os mecanismos acordados sejam efetivamente implementados, o conflito segue ditando o ritmo e impondo seu custo humano.






















