Flora Tabanelli, aos 18 anos, escreveu uma página histórica no esqui acrobático italiano: sob a neve de Livigno, a jovem atleta conquistou o bronze no big air do freestyle, garantindo à Itália a 23ª medalha nos Jogos de Milano Cortina 2026. O pódio teve a canadense Megan Oldham no lugar mais alto, com 180,75 pontos, seguida pela chinesa Eileen Gu (179 pontos). Tabanelli fechou em terceiro, com 178,25 pontos.
O resultado é tanto esportivo quanto simbólico: é o primeiro pódio olímpico italiano no esqui acrobático — um território no qual a Itália vinha buscando afirmação. A performance de Flora Tabanelli foi construída sobretudo nas duas últimas descidas. Na segunda tentativa, ela executou um trick que terminou com um pouso em switch, identificado na crônica técnica como x-I-D-10-Mu, que rendeu 84 pontos. Na terceira e decisiva passagem, completou com precisão um I-D-16-Ci avaliado em 94,50 pontos, totalizando os 178,25 que lhe garantiram o bronze.
O percurso até Livigno não havia sido linear. A temporada anterior já tinha mostrado o talento de Tabanelli — com conquistas relevantes como a Copa do Mundo geral feminina, medalhas nos X-Games e o título mundial no big air —, mas a corrida olímpica foi marcada por um grave episódio: um forte problema no joelho que chegou a lançar dúvidas sobre sua presença nos Jogos. Hoje, a imagem que ficou foi outra: a de uma atleta que transformou incerteza em resiliência.
Em entrevista após a prova, Flora foi comedida e direta: “Foi uma noite fantástica, estou muito feliz com o que aconteceu. Ainda tenho que perceber tudo, mas estar aqui com o apoio de toda a família é único”. Ela também dedicou o pódio a quem a acompanhou: “Dedico este resultado a todas as pessoas que me apoiaram. Nascer na neve me forjou; cresci vendo o esporte como a coisa mais positiva da minha vida. A jornada foi difícil e longa, mas percorrê-la foi um prazer, porque é a minha paixão”.
Sobre o trauma no joelho, Tabanelli admitiu as dúvidas e o trabalho mental que fez para manter a confiança: “Tentei não pensar nisso demais. Sabia que sabia fazer antes e sei fazer agora. Claro que houveram pensamentos, até horas antes — você nunca sabe o que pode acontecer. A única coisa é acreditar em si mesmo e seguir em frente”. A mentalidade remete a trajetórias de outros grandes nomes do esqui italiano, como Federica Brignone, igualmente protagonista em Milano Cortina.
Como observador do esporte em sua dimensão social e simbólica, é relevante notar que este bronze vai além do resultado individual. Representa um crescimento estrutural: federações, clubes de montanha e sistemas de formação começam a colher frutos em modalidades que, por muito tempo, estiveram no limiar da visibilidade nacional. O pódio de Flora Tabanelli é também um sinal de mudança de narrativa — o esqui acrobático deixa de ser um espetáculo isolado para tornar-se parte da memória esportiva italiana.
Em termos imediatos, a consagração de Livigno entra no mapa dos Jogos como um momento de renovação: uma atleta jovem, saída dos centros de neve, que converte crise em impulso e oferece à Itália não apenas uma medalha, mas um novo ícone para modalidades emergentes. Nos próximos anos, o desafio será transformar este êxito individual em políticas e programas que sustentem um ciclo virtuoso de formação e competição.
Otávio Marchesini — repórter de Esportes da Espresso Italia






















