Por Otávio Marchesini, Espresso Italia
Na manhã seguinte ao feito que a colocou no centro da festa, Federica Brignone parecia mais esgotada do que triunfante. A atleta, recém-saída do pódio com o duplo ouro, descreveu uma primeira noite marcada por sono curto, entrevistas sem fim e a sensação paradoxal de que “quando você consegue um resultado desse porte, todo mundo celebra, menos você”.
Em Casa Italia, diante de vídeos comemorativos, bandeiras e aplausos que chegavam até as janelas da praça, ela repetiu o desejo íntimo que muitos vencedores compartilham: sumir por um tempo. “Estou indecisa se pegar um avião e desaparecer o mais longe possível. Eu gostaria, mas sei que não é a coisa certa”, disse Brignone, expondo a tensão entre a visibilidade forçada e a necessidade de voltar a uma vida cotidiana mais tranquila.
Havia ainda o detalhe prático das medalhas. Ao receber as peças douradas, a campeã recusou colocá-las no pescoço: “Pesam meio quilo cada uma. Cortaram-me completamente, tenho luxações”, explicou, alternando humor e desconforto físico, antes de resguardar-se com o capuz do casaco para as câmeras.
Na arena dos rumores, floresceu o nome de James Mbaye, modelo senegalês que já havia participado de um comercial com Brignone e que, no domingo, apareceu nas arquibancadas acompanhado pelos pais da esquiadora. Um boné com estampa de tigre entreveio-se como indício — e a menção ao assunto fez com que a atleta, ao falar de gossip, apertasse as medalhas com as mãos nervosas. A resposta foi contida: “Vivo o aqui e agora. Tenho sonhos, mas por enquanto só falaram do esporte. Vou aprender a dizer não e a proteger meus espaços.”
Essa defesa de limites é, nas palavras da própria Brignone, uma tentativa de permanecer conectada a uma origem e a rituais simples: ir ao bar com as amigas de La Salle, dançar o liscio nas festas do vilarejo, manter o contato com uma vida que não foi consumida pela exposição. É um pedido de normalidade em contraposição ao lugar público de excepcionalidade em que uma medalha olímpica a coloca.
Sportiva por vocação e por formação, a campeã falou também da continuidade esportiva como um refúgio: a ideia de prosseguir na temporada funciona como um paravento para o que ela ainda não está disposta a enfrentar fora das pistas. “A vontade de voltar a me testar, vou entendê-la só quando estiver na pista. E certamente não aceito mais tomar medicamentos para esquiar”, afirmou, reafirmando uma abordagem de responsabilidade física que dialoga com debates atuais sobre a saúde do atleta e os limites da performance.
Brignone definiu seu objetivo pessoal de forma direta: queria provar a si mesma que poderia regressar de algo que parecia impossível. Essa afirmação contém, em poucas palavras, a narrativa que atravessa sua carreira — não apenas uma série de resultados, mas uma reconstrução contínua. A coragem de descer ladeiras que assustam, medos que a acompanham, são enfrentados com uma decisão: “o que dá medo, precisa ser enfrentado com coragem”.
O episódio todo — da cerimônia às especulações amorosas, do desejo de anonimato às dores físicas — mostra como o esporte contemporâneo transforma triunfo em espetáculo e transforma a pessoa que vence num objeto de consumo cultural. Para Brignone, a batalha agora é por manter um controle mínimo sobre sua própria imagem e por garantir que seu sucesso seja também um espaço para escolhas pessoais, não apenas para celebrações alheias.
Se existem críticas nessa leitura, são de natureza institucional: como as estruturas do esporte e da mídia preparam (ou não) um atleta para administrar essa transição súbita entre anonimato e exposição? O desejo de Federica Brignone de, às vezes, apenas ir ao bar com as amigas, lembra que por trás da medalha existe uma vida que reclama seu lugar.
















