Por Otávio Marchesini, Espresso Italia
Com a mesma discrição com que constrói sua carreira e uma coragem que fala mais de planejamento do que de arrojo puro, Flora Tabanelli, 18 anos, escreveu uma página inédita do esporte italiano em Milano Cortina. No Livigno Snow Park, sob neve cerrada, a jovem de Sestola (Appennino Modenese) converteu duas voltas brilhantes em um resultado histórico: a primeira medalha olímpica do país no freeski, ao assegurar o bronze no big air.
O pódio teve a canadense Megan Oldham no topo, com 180,75 pontos (91,75 + 89,00), e a chinesa Eileen Gu em segundo, com 179,00. Tabanelli fechou em 178,25: uma prova em que a adolescente mostrou maturidade competitiva — 90,00 na primeira tentativa, 84,00 na segunda e a decisiva 94,25 na terceira, soma que selou o lugar no pódio.
Mais do que o valor técnico do salto, pesa o contexto: Flora competiu com o joelho comprometido, fruto de um acidente no outono passado que ameaçou sua ida aos Jogos. A opção, tomada em acordo com a equipe médica federale, foi postergar a cirurgia e seguir por terapia conservadora e reabilitação até o objetivo máximo. A aposta deu certo, e a medalha tem a densidade de uma vitória construída também fora do parque de saltos — em salas de reabilitação, na gestão da dor e da pressão.
O significado histórico é claro. A Itália jamais havia subido ao pódio olímpico no freeski: até hoje, o melhor resultado feminino era o 8º lugar de Silvia Bertagna no slopestyle em Sochi 2014. Tabanelli não só quebra essa barreira, como inaugura para o CONI um capítulo dedicado ao freestyle nos livros das medalhas olímpicas.
Trajetória e formação explicam, em boa medida, a rapidez de sua ascensão. Filha de uma família que administra um rifugio em alta montagna, calçou esquis aos dois anos. A experiência em piano, patinação e ginástica artística deu-lhe uma base de coordenação e musicalidade corporal que hoje se traduz na precisão dos truques e na leitura do ar. Transferida com o irmão Miro para a Val di Fassa para se dedicar às evoluções do big air, estudou técnica e repertório de manobras em centros como Livigno.
Nos anos recentes, Flora acumulou conquistas que anteciparam o resultado olímpico: entre 2023 e 2024 dominou o circuito juvenil, com dois títulos mundiais juniores no big air e duas medalhas de ouro nos Jogos Olímpicos da Juventude de Gangwon (big air e slopestyle). Em 2025, já na segunda temporada como sênior, consolidou-se com pódios regulares e triunfos que a colocaram no topo da Copa do Mundo geral (primeira azzurra da história) e na classificação do big air. Venceu ainda o ouro mundial em Engadina — a primeira italiana a conquistar um título mundial em uma das disciplinas do park and pipe — além de vitórias marcantes em slopestyle na Copa do Mundo em Stoneham e no X Games de Aspen, onde foi a primeira italiana a triunfar.
Hoje, em Livigno, Flora Tabanelli não entregou apenas uma medalha: ofereceu uma narrativa de continuidade entre a tradição esportiva das montanhas italianas — lembrando os ecos simbólicos de uma terra que deu nomes como Alberto Tomba — e a renovação de uma disciplina que se transforma em espetáculo e identidade. Não é só um pódio; é a afirmação de um percurso coletivo, de estruturas de formação e de escolhas médicas e técnicas que permitiram a um talento juvenil alcançar a prova máxima no momento certo.
O bronze de Tabanelli é, portanto, um marco: técnico, simbólico e cultural. Abre-se uma nova página para o freestyle italiano, que agora conta com uma bandeira para fincar no pódio olímpico.






















