Por Chiara Lombardi, Espresso Italia
Depois de mais de meio século, um dos rituais televisivos que moldaram a memória coletiva italiana está de volta: Canzonissima retorna à Rai1 sob a batuta de Milly Carlucci. O anúncio foi feito pela própria apresentadora em um post no Instagram — um gesto que une a tradição de um formato histórico à linguagem imediata do nosso tempo digital.
O chamado ao passado não é apenas nostalgia: é uma aposta cultural. Ao resgatar um espetáculo que foi, por décadas, espelho de transformações sociais e econômicas, a emissora arrisca um reframe daquilo que entendemos por entretenimento coletivo. Segundo a própria Carlucci, a nova edição terá “Canzonissima” em breve na grade da Rai1, com a icônica assinatura sonora que muitos reconhecerão instantaneamente: a sigla “Zum zum zum” — melodia que, em 28 de setembro de 1968, marcou uma temporada histórica apresentada por Mina, com Walter Chiari e Paolo Panelli ao lado.
A lembrança desse episódio é também uma galeria de nomes que definiram o espetáculo: o diretor Antonello Falqui, autores como Marcello Marchesi, Italo Terzoli e Enrico Vaime, e as coreografias de Gino Landi. Foi ali que artistas como Gianni Morandi conquistaram plateias com canções como “Scende la pioggia”, num formato que chegou a atrair cerca de 22 milhões de telespectadores — números com que a televisão de hoje apenas sonha.
Milly Carlucci, conhecida pelo êxito de Ballando con le stelle, traz consigo a credibilidade e a coragem de reinterpretar um legado sem cair na cópia óbvia. Pelo que se sabe, a estrutura deverá respeitar o espírito original: competição entre cantores, interlúdios de humor e sketches — elementos que transformavam o programa em um verdadeiro rito coletivo, transmitido entre o outono e a Epifania e associado tradicionalmente à Lotteria Italia.
O projeto, porém, mantém um manto de reserva: detalhes do elenco e da dinâmica estão guardados. Circula a hipótese de que a nova edição contará com nomes consagrados da música italiana formando uma espécie de júri, reforçando o cruzamento entre memória e contemporaneidade. É uma escolha que parece dialogar com o desejo de devolver ao público uma sensação de pertença — algo que a televisão, em sua melhor versão, supre.
Recordar Canzonissima é revisitar vinte anos decisivos da TV e da Itália — do pós-guerra ao boom econômico, passando pelas inquietações dos anos 70. Não por acaso, entre os condutores que se revezaram no palco figuram titãs como Pippo Baudo, Raffaella Carrà, Mike Bongiorno, Loretta Goggi, Nino Manfredi, Delia Scala, Paolo Panelli e muitos outros que ajudaram a esculpir o imaginário coletivo.
Há, ainda, episódios que viraram lenda: a edição de 1959, assinada por Garinei e Giovannini e conduzida por Delia Scala, com a presença de Paolo Panelli e Nino Manfredi — este último criando para o espetáculo o célebre personagem Bastia, que passou a ser reconhecido com sua própria identidade cultural.
O retorno de Canzonissima abre, portanto, mais do que um novo programa: é uma tentativa de ler e recriar o roteiro oculto da nossa sociedade — um convite a avaliar se ainda existe espaço para o grande evento televisivo que une gerações. Milly Carlucci tem a tarefa e a oportunidade de traduzir esse patrimônio para os olhos do presente, sem apagar as marcas indeléveis deixadas por quem veio antes.
Esperamos agora o próximo ato: que a nova edição consiga ser tão reverenciada quanto a original, transformando-se em um novo capítulo de um clássico que continua a interrogar o nosso tempo.






















