Robert Duvall, um dos rostos mais reconhecíveis e complexos do grande cinema americano, morreu no domingo, 15 de fevereiro, aos 95 anos. Nascido em San Diego em 5 de janeiro de 1931, filho de um almirante e descendente, segundo registros familiares, do general Lee, Duvall incorporou por décadas a ambivalência moral de uma nação em crise — o ator que traduzia o roteiro oculto da sociedade em personagens tão perturbadores quanto inesquecíveis.
Soldado na Guerra da Coreia, Duvall forjou seu ofício nos palcos: estudou teatro em Nova York na Playhouse School of Theatre, compartilhando bancos e técnicas com nomes que também viriam a definir uma era, como Dustin Hoffman, Gene Hackman e James Caan. Do teatro off-Broadway a sucessos do cânone americano, ele transitou por obras de Miller, Mamet e Tennessee Williams, construindo uma gramática de interpretação que parecia sempre equilibrar ardor e contenção.
Seu cinema é um espelho do nosso tempo. Nos anos 60 e 70, quando Hollywood reescrevia sua própria história, Duvall tornou-se presença constante em filmes que questionavam poder, masculinidade e culpa. Ele foi Boo, a figura enigmática de To Kill a Mockingbird, o major Burns em M*A*S*H, e — sobretudo — ganhou projeção mundial como Tom Hagen, o conselheiro calmo e mortal de O Poderoso Chefão (1 e 2). A partir dessa saga, sua carreira decolou, estampando na tela um rosto que muitas vezes se identificava com o mal contido, a autoridade ambígua, o líder cuja moral se encontra em fratura.
A colaboração com Francis Ford Coppola foi decisiva: desde papéis intimistas até participações que deixaram marcas — de Non torno a casa stasera (títulos italianos que rememoram o período) à inquietante presença em Apocalypse Now, Duvall ajudou a desenhar o mapa emocional do cinema americano pós-guerra. Mas sua carreira ia além do ator de elenco perfeito: ele foi também diretor, produtor, roteirista e músico. Em Tender Mercies (no Brasil, Um Terno Agradecimento), film em que interpretou um cantor country em crise, Duvall venceu o Oscar de Melhor Ator — e até compôs canções para a obra.
Perseverante e metódico, Duvall soube seguir um caminho que valorizava papéis densos e muitas vezes desconfortáveis. Em filmes como The Great Santini, The Conversation e The Apostle (que dirigiu), ele explorou o para-choque entre autoridade e fragilidade, desenhando personagens que são, ao mesmo tempo, produto e crítica de seu tempo. Nunca quis ser apenas um astro; preferiu ser um ator de raíz, um artesão cuja beleza estava na verossimilhança.
Foi casado quatro vezes, sem filhos conhecidos, e sua vida pessoal permaneceu discreta em relação ao brilho público de sua obra. Sua filmografia atravessa décadas e estilos, um catálogo que serve como um verdadeiro reframe da realidade americana do século XX: guerras, vícios, devoção religiosa, violência institucional e pequenas epifanias cotidianas — tudo visto pela lente de um intérprete atento ao detalhe.
Para os que o viram atuar, Robert Duvall deixa o eco cultural de uma geração de atores que mudou para sempre a indústria cinematográfica: a violência do poder, o diktat das masculinidades em colisão com novas nevroses e a articulação fina entre texto e subtexto. Como um diretor que realça um ator em cena, Duvall delineou, com sua presença, o contorno de personagens que continuarão a interpelar plateias e críticos. Seu desaparecimento é a última cena de um filme longo, mas o roteiro oculto que ele ajudou a escrever continuará sendo estudado, revisto e sentido — um legado que ressoa como um espelho do nosso tempo.






















