Por Chiara Lombardi, Espresso Italia
No palco que é um verdadeiro espelho do nosso tempo, o Festival de Sanremo recebe em 2026 um nome que carrega história e tensão: Tredici Pietro, nascido Pietro Morandi, filho do icônico Gianni Morandi. Em competição com a canção “Uomo che cade”, ele encarna um roteiro íntimo e público ao mesmo tempo — a tentativa de se separar e, por fim, celebrar um legado.
Ser filho de um sobrenome famoso já é complexo; ser filho de um artista que foi sete vezes ao festival, venceu e apresentou o espetáculo outras vezes, adiciona camadas. Pietro não foge do dilema: confessa que, por anos, tentou se livrar do peso do sobrenome. “Eu odeio o nepotismo”, diz ele, e lembra que antes de chegar a este palco recebeu recusas de Sanremo. Hoje, porém, conta que sente que é hora de honrar e abraçar essa história. Há também uma ironia pública que ele antecipa: “Não vejo a hora de receber ódio e insultos por causa do sobrenome” — uma frase que revela a tensão entre autonomia artística e a inevitável genealogia.
O caminho de Tredici Pietro não foi de confronto com o pai, mas de afastamento sereno: saiu de casa ao terminar o liceu “sem brigas”. Musicalmente, afirma que não se parece com Gianni: a sua linguagem é o rap, forjado na atitude e no freestyle. As referências são globais e urbanas: Eminem, 50 Cent, Fabri Fibra, Mondo Marcio — artistas que abriram para ele um horizonte tão distinto quanto alguém que, acostumado com massa todos os dias, descobre o arroz pela primeira vez. Nessa jornada hegeliana, a síntese apareceu: aceitar-se diferente do pai e, finalmente, reconhecê-lo.
Em “Uomo che cade”, ele combina versos de rap clássico a um refrão que lembra o cancionismo refinado — uma costura entre o asfalto e a tradição do canto italiano. O tema é universal: os altos e baixos da vida. Pietro recorre a mitos e ícones para desenhar o mapa emocional: Ulisses demora vinte anos para voltar a Ítaca, Maldini perdeu mais finais do que ganhou — o herói é feito de quedas e retomadas. O objetivo, diz ele, é destacar a importância de agir para melhorar, porque é no não agir que se despenca. No fim, a referência a Penélope vira uma metáfora de chegada e consistência.
Formado em estudos clássicos (com diplomação mínima) e tendo passado por três exames em Ciências da Comunicação antes de migrar para História, Pietro exibe uma formação que dialoga com sua música: erudição que encontra rua. O nome artístico — Tredici Pietro — nasceu para manter unido um coletivo de companheiros que começou com ele; a ideia do número veio do designer gráfico que o acompanha.
Fora dos versos, aparecem paixões que ajudam a entender sua abordagem: xadrez, pôquer e geopolítica. Ele mesmo compara o rap ao pôquer — ambos baseados em bluff, leitura e risco calculado — e assim revela um modo estratégico de estar no palco e na vida.
Se o público em Sanremo observar apenas a superfície, perderá o roteiro oculto que essa escolha representa: não é apenas um herdeiro se expondo, é um artista que reconstrói um laço público com o passado, transformando um sobrenome em personagem de sua própria narrativa. No final, Pietro espera a avaliação do pai após a primeira noite; entre aplausos e críticas, o festival volta a ser um cenário de transformação onde o privado encontra o coletivo.





















