Por Chiara Lombardi — Em cena que parece saída de um frame expressionista, Isabelle Huppert reaparece na Berlinale com dentes caninos afiados e um manto vermelho que rivaliza com o de Visconti em Ludwig. A diva parisiense, nascida em 1953 e dona de uma carreira de cinco décadas e mais de 120 filmes, confessa: “Foi tão divertido fazer a vampira”. Mas, para quem observa com olhos de crítica cultural, essa estreia no gênero não é apenas uma fantasia sangrenta — é um novo espelho do nosso tempo.
Em The Blood Countess, dirigido pela veterana experimental Ulrike Ottinger, Huppert dá voz e corpo a uma figura inspirada em Elizabeth Báthory, a lendária condessa húngara nascida em 1560 e envolta em folclore sobre assassinatos e banhos de sangue. No filme, após uma misteriosa ausência, a contessa ressurge na Viena contemporânea em busca de um livro perigoso — um McGuffin capaz de “destruir todo o mal”, acionando uma caça ao tesouro que mistura terror, fábula e humor negro.
“Ela prefere sangue jovem”, diz Huppert com a ambivalência que lhe é característica: sedutora e fria, cruel e quase poética. “Isso alongaria minha vida. Sou uma mulher horrível, manipuladora; me aproximo das jovens com sensualidade, mas sou fluída, como todo vampiro”. Ao mesmo tempo, ela ressalta que, diante de um imaginário tão vasto, não se deve partir de um “abordagem psicológica” simplista — e é justamente aí que a proposta de Ottinger encontra terreno fértil: reinventar um mito na fronteira entre o riso e o perigo.
Aos 83 anos, Ottinger traz para a tela sua experiência de pintora e cineasta vanguardista — uma alquimia de formas que Huppert elogia como “visionária, uma dimensão que o cinema necessita”. No set, o absurdo convive com a erudição: há traços do humor negro austríaco, referências literárias e até um “vampiro vegetariano”, lembrando que o horror também pode ser uma fábula de costumes.
Huppert não é estranha ao palco berlinense. Ela recorda que trouxe A Pianista ao festival com Michael Haneke, “que me fez repetir uma cena 48 vezes” — uma memória que diz muito sobre sua disciplina e sobre o rigor do cinema europeu. Quatro anos atrás, a Berlinale lhe concedeu um prêmio à carreira; ela lembra de tantas vindas ao festival que hoje o considera um “espelho” onde sua trajetória se reflete, entre prêmios e reencontros. Evoca também o filme 8 Mulheres, quando o Urso de Prata premiou todo o elenco composto por nomes como Catherine Deneuve e Fanny Ardant.
Enquanto isso, o verdadeiro horror promete um capítulo à parte: Huppert gravará com Dario Argento um remake de um thriller mexicano dos anos 1940 — uma guinada para o território do terror clássico italiano que coloca a atriz no cruzamento entre tradição e reinvenção. A sua vampira em Viena, contudo, é mais do que sangue e estética: é um reframe do mito, um roteiro oculto onde vida e morte dançam em equilíbrio frágil, e onde a sedução do horror revela as fissuras da modernidade.
Na tela, quando Huppert sorri como a contessa, vemos ao mesmo tempo esperança e desespero — um olhar capaz de sintetizar o paradoxo humano. É por isso que, mesmo envolta em vermelho-sangue, ela continua sendo, para o espectador atento, uma rainha do nosso tempo: fascina, provoca e nos obriga a perguntar o porquê por trás do espetáculo.






















