Por Chiara Lombardi — A literatura que volta à tela pequena nem sempre é adaptação: muitas vezes é um reframe do nosso espelho cultural. É isso que promete a nova minissérie baseada em O Senhor das Moscas, o clássico de 1954 de William Golding, agora adaptado para TV por Jack Thorne, conhecido pelo sucesso e pela análise implacável da juventude em Adolescence.
A produção, dirigida por Marc Munden, chega como um estudo estético e moral sobre a adolescência vista como um palco de caos, violência e ambiguidade — o mesmo roteiro oculto que atravessa o romance original. A minissérie, composta por quatro episódios de cerca de uma hora cada, estreia em 22 de fevereiro e estará disponível para streaming em Sky e NOW.
Do ponto de vista sonoro, há um elenco criativo de peso: a música temática é assinada por Hans Zimmer e Kara Talve, enquanto as composições originais ficam por conta de Cristobal Tapia de Veer. Essa combinação sugere um design sonoro que atua como personagem — uma trilha que promete acentuar a tensão psicológica e a dimensão quase mitológica da narrativa.
Adaptar O Senhor das Moscas hoje é ler novamente o mapa da nossa imaginação coletiva. A obra de William Golding sempre funcionou como um espelho do nosso tempo: a ilha deserta é o cenário de transformação onde se desenham regras, símbolos e rupturas. Em mãos de Jack Thorne, conhecido por sondar as fissuras juvenis sem moralismo simplista, a história ganha um viés contemporâneo que pergunta não só “o que fazemos” mas “por que nos vemos compelidos a isso”.
O que espero não é uma reencenação literal, mas sim um reexame: como o caos da juventude ecoa em sociedades cada vez mais fragmentadas? Como a semiótica do viral e a cultura digital reconfiguram os ritos de passagem que Golding dramatizou como conflito físico e simbólico? A presença de Marc Munden como diretor e de nomes sonoros na trilha indica uma aposta numa linguagem audiovisual sofisticada, capaz de transformar a ilha em um cenário de reflexão visual e auditiva — quase um curta de antropologia ficcional em quatro atos.
Para o público que acompanhou Adolescence, há um laço evidente: ambas as obras não tratam a juventude como mero palco de tragédias, mas como um laboratório social onde se condensam tensões maiores. E para quem é fã do romance de Golding, surge a oportunidade de ver antigos símbolos (o concha, o fogo, a escalada da violência) sob uma nova luz, com estética e som pensados para os olhos e ouvidos contemporâneos.
A estreia em 22 de fevereiro em Sky e NOW coloca a minissérie no centro do calendário cultural de início de 2026. É um convite para observar — com curiosidade sofisticada — como um texto do pós-guerra conversa hoje com o cenário digital e com as ansiedades políticas e sociais que atravessam a juventude.
Em resumo: O Senhor das Moscas na televisão não é apenas uma adaptação; é uma releitura que promete transformar um clássico literário em espelho do nosso tempo, um roteiro oculto que precisa ser lido sobretudo pela lente da contemporaneidade.






















