Milano Cortina tem sido, nas palavras de Luciano Buonfiglio, um palco onde o esporte italiano demonstra um potencial que ultrapassa resultados e placas de pódio. Em participação no programa ‘Cinque Minuti’ da Rai Uno, o presidente do CONI elogiou a condução dos Jogos e defendeu a experiência italiana como um modelo a ser imitado para o esporte global.
Buonfiglio afirmou que ‘a Itália está fazendo uma Olimpíada estrepitosa’ e acrescentou que o desempenho das delegações italianas, refletido no quadro de medalhas, enche ‘as italianas e os italianos’ de orgulho. Questionado sobre a meta de medalhas, foi econômico e direto: ‘o mais possível’. Essa resposta sintetiza uma ambição que, para ele, nasce de trabalho coletivo e de preparação estrutural.
O presidente do CONI enfatizou que o segredo do sucesso não é um talento individual isolado, mas o ‘grande trabalho de equipe’, com foco nas atletas e atletas que conseguiram cumprir objetivos mesmo diante da pressão de competir em casa. ‘Eles deram tudo o que tinham — e esse era o nosso objetivo’, disse Buonfiglio. Essa ênfase na preparação psicológica e na gestão da expectativa pública revela uma leitura madura sobre o papel do esporte em momentos de intensa visibilidade nacional.
Mais do que celebrar medalhas, Buonfiglio promoveu a ideia de um modelo organizativo distribuído. Para ele, a escolha de localizar competições em múltiplas sedes — a estratégia central de Milano Cortina — é uma vantagem italiana difícil de replicar: ‘As outras nações não têm localidades tão belas, não comem como nós e não têm a nossa hospitalidade e afeto’, afirmou. Em sua visão, a dispersão de sedes funciona como vitrine de diversidade territorial, gastronômica e cultural, ao mesmo tempo em que cria uma experiência acolhedora para atletas e público.
Do ponto de vista estrutural e histórico, essa aposta é relevante. A Itália transforma seus territórios e tradições em parte integrante da experiência olímpica, um gesto que combina promoção turística, investimentos em infraestrutura e construção de memória coletiva. Porém, há desafios operacionais e logísticos inerentes a um modelo que rompe com a centralização clássica dos grandes eventos — desafios que Buonfiglio admite enfrentar, mas que também apresenta como oportunidade pioneira.
Como analista atento às interseções entre esporte e sociedade, vejo nessa postura do CONI um movimento que reafirma o papel do esporte como projeto público que extrapola resultados numéricos. A aposta italiana coloca em evidência questões de legado: como serão aproveitadas as infraestruturas, como se manterá o engajamento regional e de que forma o país capitalizará culturalmente essa visibilidade.
Ao convocar apoiadores e instituições a ‘estar cada vez mais perto’, Buonfiglio lança um apelo pragmático. O sucesso de Milano Cortina dependerá tanto da performance das atletas quanto da capacidade coletiva de transformar um evento em política pública sustentável — e em memória compartilhada.
Em suma, a mensagem é dupla: celebrar o presente e pensar o futuro. O discurso do presidente do CONI combina legítimo orgulho com convite à responsabilidade. Num país onde o esporte historiciza territórios e identidades, essa combinação é, talvez, a maior ambição de qualquer Olimpíada organizada em solo italiano.






















