Por Otávio Marchesini, Espresso Italia
A história recente do biathlon italiano ganhou na última jornada um capítulo que será lembrado com precisão pelos próximos anos: Lisa Vittozzi conquistou o primeiro ouro da Itália na sua modalidade em Jogos Olímpicos, em plena Milano Cortina. Mais do que um resultado esportivo, trata-se de um momento simbólico — uma confluência entre persistência individual, estrutura técnica e um ambiente olímpico que, por ser em casa, amplifica sentidos coletivos.
Vittozzi, natural de Sappada, revelou com franqueza que, até o ano passado, havia pensado em encerrar a carreira. “Se hoje estou aqui é graças à minha tenacidade, porque nunca deixei de acreditar em mim”, disse em entrevista. A declaração traduz uma trajetória comum a muitos atletas de alto rendimento: decisões íntimas e crises que, quando superadas, convertem-se em performances decisivas.
Em conversa com Bruno Vespa no programa Cinque Minuti da Rai Uno, a biatleta comentou a dimensão emocional da vitória, dedicada aos avós Sergio e Lea. Ao recordar os familiares, Vittozzi emocionou-se: “Lembrá-los é uma emoção. Eu os tenho sempre comigo, penso que ontem estavam a olhar por mim…”. Essas referências pessoais ajudam a compreender como memória e pertencimento alimentam a motivação desportiva.
Do ponto de vista competitivo, a agenda da atleta ainda reserva decisões importantes: daqui a dois dias ela retorna à pista na staffetta feminina e, no sábado, competirá na mass start. Vittozzi foi realista ao afirmar que a equipe não figura entre as favoritas, mas reafirmou confiança coletiva: “Temos possibilidades em ambas as provas; a staffetta pode dizer a sua. Não somos as favoritas, mas acreditamos. Há ainda muitas possibilidades de medalha”.
É relevante sublinhar o papel do grupo técnico e da estrutura ao redor da atleta. Vittozzi mesma destacou o mérito da equipa, que tornou possível uma “prova perfeita”. Em esportes como o biathlon, onde precisão no tiro e resistência no esqui se encontram, a margem entre triunfo e frustração é tão estreita quanto essencial é a preparação meticulosa do staff — treinadores, técnicos de arma, fisioterapeutas e gestores de competição.
Em perspectiva histórica, o ouro de Vittozzi em Milano Cortina reconfigura narrativas: não é apenas a primeira medalha dourada italiana no biathlon em Jogos de Inverno, mas um catalisador para o desenvolvimento da modalidade no país. Vencer em casa tem efeitos multiplicadores sobre captação de recursos, visibilidade e interesse juvenil — ingredientes necessários para consolidar elites futuras.
Para além do pódio, a lição maior é humana. A trajetória de Vittozzi lembra que carreiras esportivas são trajetórias biográficas inscritas em contextos locais e institucionais. A atleta de Sappada converteu dúvida em decisão e coleta agora o fruto — mas, sobretudo, abre a possibilidade de que a Itália sonhe com mais conquistas nas próximas provas.
Enquanto analisamos o valor imediato do ouro, é útil acompanhar com atenção as próximas provas: a staffetta e a mass start serão oportunidades para avaliar se esse momento se transforma em momentum coletivo ou permanece um ápice individual. Em qualquer dos desdobramentos, a narrativa de Lisa Vittozzi já entrou para a memória do esporte italiano.






















