Giulliano Martini. Pesquisa da Universidade de Ciências Gastronômicas de Pollenzo mostra que as mulheres adotam práticas mais eficazes na prevenção do desperdício alimentar. O levantamento, realizado com 390 cidadãos italianos e apresentado em Milão durante o evento final do projeto Scrap the food waste, aponta que a redução do desperdício não depende apenas de boas intenções, mas também de determinantes sociais, culturais e digitais.
O projeto, com coordenação da Unione Nazionale Consumatori e execução pela AWorld e pela própria universidade de Pollenzo, incluiu 20 meses de atividades. A agência Will Media liderou a concepção, o envolvimento dos parceiros em instâncias decisórias e a criação de uma campanha de sensibilização focada na comunidade 18-35 anos, sobretudo nas plataformas Instagram e YouTube.
No encontro intitulado “O alimento que não vemos — números, histórias e escolhas por trás do desperdício alimentar”, os quatro parceiros do projeto, financiado pela European and Digital Executive Agency (HaDEA) no âmbito do programa SMP Food, apresentaram as iniciativas desenvolvidas para elevar a conscientização dos consumidores sobre o tema.
A escolha do local para a apresentação reforçou a mensagem prática da iniciativa: o Refettorio Ambrosiano, um modelo de economia circular aplicada ao alimento. Criado em 2015 por Massimo Bottura e Davide Rampello em parceria com a Caritas Ambrosiana, o Refettorio transforma diariamente excedentes em refeições de qualidade. Em dez anos, contabiliza mais de 220.000 refeições distribuídas, demonstrando que o desperdício pode virar recurso e que solidariedade pode andar junto com dignidade e estética.
O evento apresentou ainda momentos práticos com oficinas coordenadas pela chef Irene Bernacchi, que trabalha com excedentes e imperfeições para produzir sorvetes a partir de frutas descartadas. Bernacchi atua em parceria com a Recup, associação que recolhe frutas e verduras não vendidas em mercados municipais — iniciativa presente em Milão e Roma.
O núcleo do relatório técnico é a construção do Índice de Prevenção do Desperdício Alimentar (Fwpi), usado pela Universidade de Pollenzo para traçar perfis de consumidores com comportamentos mais efetivos na redução do desperdício doméstico. O cruzamento de dados revelou padrões claros: além das mulheres, moradores de áreas rurais e pessoas que seguem dietas flexitarianas ou vegetarianas apresentam pontuações superiores no Fwpi, indicando práticas concretas de prevenção.
Os resultados destacam que medidas individuais são influenciadas por contexto social e digital. A presença de campanhas educativas em redes sociais e o acesso a serviços de recuperação de alimentos emergem como fatores que melhoram o comportamento do consumidor. Em termos práticos, isso implica que políticas públicas e iniciativas privadas devem combinar comunicação dirigida (especialmente a públicos jovens) com estruturas que facilitem a recuperação e a redistribuição de excedentes.
Do ponto de vista metodológico, a pesquisa baseou-se em questionários aplicados ao painel de 390 participantes e na construção do Fwpi, que pondera variáveis de atitude, prática e contexto. Os organizadores destacaram que a amostra oferece indicativos relevantes, embora não substitua levantamentos de maior escala para fins de política pública nacional.
Conclusão pragmática: reduzir o desperdício alimentar exige intervenções integradas — educação, infraestrutura de recuperação e campanhas digitais orientadas — e reconhece que perfis demográficos, como o feminino, já demonstram maior eficácia nas práticas domésticas. O desafio agora é replicar essas boas práticas em larga escala para transformar resultados locais em impacto sistêmico.
Apuração in loco, cruzamento de fontes e fatos brutos: este é o raio-x apresentado pelo projeto Scrap the food waste, com a prática do Refettorio Ambrosiano e as oficinas de aproveitamento como provas concretas de que desperdício pode ser convertido em recurso social.






















