Em uma leitura que atravessa o campo esportivo e a esfera pública, Ambra Sabatini reafirmou a dimensão social das grandes competições ao afirmar que “as Olimpíadas e as Paralimpiadas são sempre um grande momento de envolvimento do público, da população. É a ocasião para mandar mensagens fortes, entre elas a inclusão, mas também a importância da segurança viária”. A declaração foi proferida durante a projeção em anteprima do docufilm “Ambra Sabatini. A un metro dal traguardo”, no Salone d’Onore de Casa Italia, na Triennale di Milano.
Porta-bandeira da Itália em Paris 2024, detentora do recorde mundial nos 100 metros e múltipla medalhista, Sabatini ocupa um lugar que não se esgota na pista: sua presença na ribalta internacional transforma a figura da atleta em um veículo de comunicação e de persuasão cívica. O docufilm, cuja pré-estreia reuniu imprensa e representantes institucionais, funciona justamente como esse canal de amplificação — não meramente para celebrar feitos esportivos, mas para traduzir trajetórias em apelos públicos.
Enquanto repórter atento às relações entre esporte e sociedade, é necessário sublinhar que eventos como as Olimpíadas e as Paralimpiadas configuram mais que um calendário de competições: são janelas de visibilidade que podem influenciar políticas, moldar discursos e recalibrar prioridades coletivas. A escolha de uma atleta reconhecida por sua performance para carregar a bandeira nacional é, portanto, ao mesmo tempo simbólica e estratégica. Quando essa figura lança mensagens sobre inclusão e segurança viária, o apelo atinge públicos que as campanhas institucionais raramente conseguem acessar com a mesma intensidade.
O docufilm apresentado em Milão oferece, segundo quem esteve na sala, uma narrativa que não satiriza o esforço, nem o reduz a espetáculo fácil. Pelo contrário: devolve humanidade ao percurso atlético, lembrando que estádios e pódios são palcos de histórias individuais que dialogam com memórias coletivas e com urgências públicas — entre elas, a necessidade de políticas eficazes de prevenção no trânsito e de práticas reais de inclusão no esporte e além dele.
Em termos práticos, a repercussão desse tipo de iniciativa tende a reforçar dois eixos: primeiro, a legitimidade de pautas sociais quando incorporadas por grandes eventos esportivos; segundo, a responsabilidade de federações, clubes e meios de comunicação em manter essas pautas no debate público mesmo após o encerramento das competições. A projeção em Casa Italia é exemplo de como instituições podem combinar memória, representação e militância cidadã.
Não se trata de reivindicar um papel messiânico para o esporte, mas de reconhecer sua potência comunicativa. As Olimpíadas e as Paralimpiadas, ao mobilizarem audiências planetárias, oferecem material simbólico raro: imagens, histórias e figuras que, bem encaminhadas, podem contribuir para mudanças concretas na percepção social e nas práticas cotidianas.
Ao final da sessão em Milão, a impressão foi a de que a voz de Ambra Sabatini — atleta e protagonista de um filme que pega carona no sentimento coletivo — assume a tarefa discreta, porém decisiva, de transformar o aplauso em consciência. E essa é, talvez, a sua maior vitória fora das pistas.






















