Elisabetta Gualmini, eurodeputada desde 2019, anunciou oficialmente a sua saída do Partido Democrático (PD) e a adesão a Azione, abrindo caminho para a sua transferência ao grupo Renew Europe no Parlamento Europeu. O anúncio foi feito em conferência de imprensa ao lado de Carlo Calenda, evocando o manifesto Siamo Europei, partilhado por ambos nas eleições de 2019.
Na sua declaração, Gualmini descreveu o movimento como “um pouco como voltar para casa”, ao mesmo tempo que traçou um diagnóstico crítico sobre a evolução interna do PD: segundo a eurodeputada, o partido sofreu uma “mutação genética” que deslocou a sua orientação para uma esquerda mais radical e reduziu o espaço para o riformismo moderado e para uma política externa de perfil governativo. A líder interna Elly Schlein, afirmou Gualmini, consolidou um domínio que deixou menos margem de atuação para vozes com sua matriz político-diplomática.
Apesar de a incorporação formal ao grupo Renew Europe ainda não ter sido inscrita nos registos do Parlamento — entre os 75 membros do grupo ainda não havia nenhum eurodeputado italiano —, Gualmini foi taxativa: “Aderisco a Renew Europe. Quero trabalhar em Europa, sou fortemente europeísta; aquele grupo é o mais europeísta entre os existentes e aí quero construir um espaço para representar as minhas ideias”.
O gesto tem implicações concretas no equilíbrio das forças em Estrasburgo: com a saída de Gualmini, a delegação do PD passa a contar 20 membros no grupo dos Socialistas & Democratas (S&D), equiparando-se à delegação socialista espanhola. Trata-se de um movimento que altera, ainda que marginalmente, a tessitura interna do S&D e que sinaliza um reposicionamento estratégico de atores centristas italianos no tabuleiro europeu.
O percurso recente de Gualmini inclui episódios de tensão política: em março de 2025 ela se auto-suspendeu do grupo S&D após a solicitação de revogação de imunidade parlamentar no âmbito das investigações do chamado “Qatargate”. Em dezembro daquele ano, o Parlamento decidiu reafirmar a sua imunidade. No plano legislativo, a eurodeputada destacou-se na última legislatura como relatora de uma longa e complexa diretiva sobre os direitos dos trabalhadores das plataformas digitais, uma batalha normativa que se estendeu por três anos e realçou a sua capacidade técnica e diplomática.
Para além das consequências imediatas, a mudança de filiação de Elisabetta Gualmini pode ser lida como parte do redesenho de frentes políticas na Europa: um movimento de peça que procura criar um novo eixo de influência para vozes reformistas e europeístas no centro-direita e centro do tabuleiro. Em termos geopolíticos, é um reposicionamento que aposta na consolidação de uma plataforma liberal-progressista com ambições de governabilidade europeia.
Como analista, observo este episódio com a calma de quem lê uma partida de xadrez: não se trata apenas de uma troca de filiação, mas da tentativa de reconstruir alicerces políticos convenientes para agir no palco europeu — uma operação de cartografia política cujo impacto dependerá da capacidade de Gualmini e de seus aliados em traduzir capital político nacional em influência efetiva nas instituições comunitárias.






















