Bruxelas — Em movimento calculado no tabuleiro diplomático, a União Europeia optou por enviar a comissária para o Mediterrâneo, Dubravka Šuica, ao primeiro encontro do controverso Board of Peace, convocado em Washington este fim de semana. A participação, porém, será limitada: a Comissão Europeia reforçou que não se tornará membro pleno do organismo e que Šuica atuará apenas como membro observador na sessão dedicada à situação em Gaza.
Um porta-voz do executivo comunitário esclareceu que a presença deriva do histórico compromisso europeu com a implementação do cessar-fogo no Médio Oriente e com os esforços internacionais de apoio à reconstrução e recuperação pós-conflito em Gaza. Essa razão justifica o interesse da UE em acompanhar de perto as deliberações, mas sem vinculação institucional que possa comprometer a sua posição jurídica e normativa.
Na mesma declaração, entretanto, emergiram as reservas de Bruxelas quanto à compatibilidade da governança do Board of Peace com o direito da União Europeia e com a Carta das Nações Unidas. Essas dúvidas, já manifestadas em semanas anteriores, voltaram a ser enfatizadas no ponto de imprensa, sinalizando que a Comissão mantém uma postura cautelosa e crítica diante de qualquer arquitetura internacional que possa deslocar alicerces jurídicos ou criar precedentes problemáticos.
A coordenação entre a Comissão e os Estados-membros que assumem posições formais no Board também foi sublinhada. Alguns Estados europeus participarão como membros plenos — nomeadamente Hungria e Bulgária — enquanto outros, incluindo Itália, Grécia, Romênia e Chipre, seguirão a via do observador, análoga à adotada por Šuica. Segundo Guillaume Mercier, porta-voz para parcerias internacionais, a Comissão está em contacto permanente com os ministros estrangeiros e o contributo europeu ao plano de paz para Gaza será discutido no Conselho de Assuntos Externos agendado para a próxima semana.
Um ponto crítico que transversaliza os trabalhos do Board é a eficácia do plano de paz face às persistentes violações do cessar-fogo. O porta-voz da Comissão aproveitou para reiterar o apelo a todas as partes para que respeitem os compromissos assumidos, fazendo ainda referência expressa à recente decisão do gabinete de guerra israelense de ampliar o controle sobre a Cisjordânia. Para Bruxelas, trata-se de uma iniciativa que contraria a resolução ONU 2334 e o princípio dos dois Estados; a Comissão continua a considerar ilegítima qualquer anexação dos territórios da West Bank por parte de Israel.
Na perspectiva de análise estratégica, esta participação observadora da UE representa um movimento de contenção prudente: manter presença e influência no debate — sobretudo no capítulo humanitário e de reconstrução — sem ancorar-se formalmente a uma nova arquitetura que não foi ainda avaliada quanto à sua conformidade jurídica e política. É um gesto que lembra um lance de enxadrista experiente: posicionar a peça para vigiar o centro do tabuleiro enquanto se preserva a liberdade de movimentos futuros.
Marco Severini — Espresso Italia






















