Bruxelas — Em análise estratégica que lembra um movimento decisivo no tabuleiro, a Comissão Europeia aponta o limite de 30 km/h nas zonas urbanas — a chamada iniciativa Città 30 — como “a medida com o maior impacto” para reduzir as mortes nas estradas na União Europeia. O diagnóstico consta da avaliação intermédia da execução do quadro estratégico de segurança rodoviária 2021‑2030, peça central da aspirada Vision Zero, que pretende eliminar fatalidades até 2050.
O relatório traça uma cartografia preocupante: apesar de progressos dispersos, o ritmo de melhoria é insuficiente para alcançar a meta de redução de 50% das vítimas até 2030. Em 2024 foram registadas 19.940 vítimas mortais nas estradas da UE — uma queda de 12% em relação a 2019, mas apenas 2% a menos do que em 2023, quando o caminho exigiria uma redução anual média de 4,6% para cumprir os objetivos traçados.
Os alicerces desta análise exibem desigualdades marcantes entre Estados‑membros. O intervalo de taxa de mortalidade em 2024 vai de 20 mortes por milhão de habitantes na Suécia a 78 na Romênia, fixando a média europeia em 45 óbitos por milhão. A Itália, com 51 mortes por milhão, permanece acima dessa média, tendo registado apenas progressos marginais.
O executivo comunitário destaca que, se a meta de redução de 50% até 2030 fosse alcançada em comparação com 2019, aproximadamente 11 mil vidas seriam salvas e reduzir-se‑iam significativamente os cerca de 100 mil casos de lesões graves que ocorrem anualmente nas estradas europeias. O impacto económico é igualmente relevante: os custos directos e indirectos ligados a acidentes rodoviários estão estimados em cerca de 2% do produto interno bruto da UE, com a despesa em cuidados de saúde e reabilitação liderando as perdas.
A implementação dos planos de segurança rodoviária dá mostras de uma tectônica de poder fragmentada entre os 27: Bélgica, Bulgária, Dinamarca, Lituânia, Malta, Polónia e Eslovénia são apontadas como as mais próximas de atingir a meta de 50% até 2030. Outros Estados‑membros, incluindo Irlanda e Estónia, registaram aumentos nas vítimas, enquanto França, Itália e Países Baixos apresentam apenas avanços modestos.
Do ponto de vista estratégico, a promoção do Città 30 deve ser vista como um redesenho de fronteiras invisíveis na mobilidade urbana: reduzir o limitador de velocidade equivale a recolocar peças no tabuleiro urbano — protegendo peões vulneráveis, como peões e ciclistas, e alterando dinâmicas do tráfego que hoje penalizam vidas humanas. A eficácia dessa medida depende, porém, de um conjunto coerente de políticas: fiscalização, engenharia de vias, formação e investimento em infraestruturas de transporte ativo.
Como analista, mantenho a visão de que a implantação generalizada de zonas a 30 km/h é uma jogada estrutural que pode consolidar alicerces frágeis da diplomacia urbana entre governos locais e executivos nacionais — um esforço que exige coordenação técnica e coragem política. Se a União Europeia pretende transformar intenção em resultado concreto, será preciso acelerar passos e harmonizar prioridades: a sobrevivência de milhares de cidadãos depende disso.






















