Bruxelas — Em um movimento que redesenha, em escala diplomática, o mapa das alianças transatlânticas, a União Europeia elevou o Canadá como interlocutor privilegiado nas cúpulas do G7 e do G20. A reunião ampliada do Eurogrupo, que contou com os 27 ministros econômicos da UE — e não apenas os 21 da zona do euro —, recebeu o ministro das Finanças canadense, François-Philippe Champagne, para discutir os atuais e persistentes desequilíbrios macroeconômicos globais e as respostas coordenadas possíveis.
Kyriakos Pierrakakis, presidente do Eurogrupo, descreveu o encontro como um passo deliberado para reforçar o diálogo sobre prosperidade e estabilidade econômica. “A questão dos desequilíbrios macroeconômicos não se reduz a fluxos comerciais pontuais entre países; ela afeta todo o sistema de inter-relações financeiras e econômicas”, afirmou, sublinhando que a eurozona, embora não seja o epicentro desses desequilíbrios, permanece vulnerável a um quadro global fragilizado.
O tom da conversa — e a sua extensão institucional — sinalizam uma intenção clara: fortalecer um eixo de cooperação com o Canadá como contrapeso nas plataformas multilaterais onde circulam as decisões que moldam a ordem econômica. Nas palavras de Pierrakakis, “o Canadá é um caro amigo”, uma ênfase pública estratégica que reflete a busca da UE por parceiros confiáveis num período em que a confiança tradicional em Washington se mostra abalada.
Este reposicionamento não é meramente retórico. Ao convidar o representante canadense para a mesa ampliada do Eurogrupo, a União Europeia sinaliza que pretende levar soluções comuns aos fóruns do G7 e do G20, onde as tensões geoeconômicas exigem respostas coordenadas. Trata-se de um movimento decisivo no tabuleiro diplomático: realinhar parceiros, reforçar coalizões e preservar alicerces de estabilidade antes que fragilidades sistêmicas se agravem.
Do ponto de vista estratégico, a iniciativa revela uma leitura de longo prazo da tectônica de poder transatlântica. Ao privilegiar o Canadá como interlocutor, a UE procura assegurar que as agendas sobre fluxos financeiros, regulação e resiliência econômica encontrem um terreno de convergência em que a cooperação multilaterais seja eficaz mesmo diante de rupturas nas relações com os Estados Unidos.
O encontro também funcionou como oportunidade para aprofundar relações econômicas já sólidas entre a UE e o Canadá, com vistas a coordenar políticas fiscais, respostas a choques externos e mecanismos de mitigação de riscos geoeconômicos. Para observadores que acompanham o xadrez da diplomacia econômica, esta é uma jogada que combina prudência e audácia: prudência em reconhecer vulnerabilidades, audácia em redesenhar alinhamentos antes que as pressões externas se cristalizem.
Em suma, a cúpula ampliada do Eurogrupo com François-Philippe Champagne marca uma nova fase nas relações UE-Canadá — uma fase em que o diálogo estrutural em fóruns como o G7 e o G20 torna-se instrumento central para conter desequilíbrios globais e preservar a estabilidade de um sistema interdependente cada vez mais sujeito a riscos geoeconômicos.





















